sexta-feira, 17 de agosto de 2007

PELOS CAMINHOS DO MUNDO - AS GUERRILHEIRAS DAS FARC


Falam e escrevem muito dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – quase sempre para caluniá-los – e pouco das guerrilheiras. A maioria das pessoas ignora que milhares de mulheres combatem nas 60 Frentes em que as FARC lutam naquele país.
Conheci muitas em 2002, nas semanas vividas num acampamento amazônico dessa organização revolucionária com mais de quarenta anos de resistência armada.
Como transmitir no breve espaço de uma crônica, o que em mim ficou do contato com essas guerreiras de novo tipo?
Encontrei ali moças tão diferentes que seria redutor o esforço para esboçar o choque emocional provocado pelo descobrimento das combatentes das FARC. De comum entre elas apenas a coragem, a capacidade de adaptação a condições de vida duríssimas e uma confiança total na justiça da luta das FARC e na vitória final, sem data.
No meu acampamento somente uma não tinha companheiro. Entre as mulheres, apenas Eliana ultrapassara os 40 anos de vida. A maioria não atingira os 25 anos. A ética da guerrilha impunha normas que eram respeitadas. Se dois namorados pretendiam estabelecer uma relação amorosa informavam o comandante. A infidelidade não era tolerada pelo código da guerrilha. A pareja era autorizada a dormir na mesma caleta, o estrado-cama que, sob um toldo de plástico, na grande floresta, fazia as vezes de casa. O regulamento proibia também que os guerrilheiros, homens ou mulheres, mantivessem relações sexuais com hóspedes das FARC.
Mas não havia moralismo. Se um casal decidia pôr termo à relação, comunicava essa decisão ao comandante. O gesto consumava a separação.
As mulheres realizavam os mesmos trabalhos que os homens, desde o treinamento militar à abertura das latrinas. Iguais direitos, tarefas idênticas.
O quotidiano dos acampamentos não permitia a privacidade a que hoje estamos acostumados no dia-a-dia urbano. Na selva, infestada por transmissores de doenças perigosas, o banho diário é imprescindível à defesa da saúde. As mulheres banhavam-se no rio ao lado dos homens numa atmosfera de camaradagem e respeito que me impressionou. Elas de calcinhas, eles de cuecas. As normas do pudor, tal como as conhecemos, não podiam funcionar ali. Mas nunca, nem nos olhares nem nas palavras, testemunhei atitudes da qual transparecesse um comportamento machista.
Elas, tal como eles, tinham diferentes origens sociais. Algumas tinham vindo de grandes cidades, outras dos llanos ou dos vales quentes; outras ainda das terras frias da Cordilheira. A origem social transparecia mais no diálogo do que no comportamento, porque moças de famílias camponesas haviam adquirido uma sólida formação ideológica.
Para surpresa minha, quase todas eram bonitas.
Na Aula – o lugar onde à noite o coletivo da guerrilha se reunia para assistir a palestras e debater o tema com o “professor” convidado – tive a oportunidade de falar mais demoradamente com algumas que mal conhecia, como a Adriana e a Jenny.
O meu trabalho exigiu contatos muito freqüentes com quatro: a Glória, a Eliana, a Yurleni e a Isabel.
Glória era a secretária sem título do comandante Raul Reyes. De origem pequeno-burguesa, adquirira uma formação marxista ampla, pouco comum. Era a responsável pelos computadores e pelas transmissões por rádio, serviços instalados num “escritório” que se diferenciava das caletas apenas por sua maior dimensão. Enviava mensagens codificadas e decifrava as recebidas. A sua intimidade com o mundo da informática fazia de mim um aprendiz bisonho.
Era muito bonita e nem o uniforme lhe afetava a feminilidade. Foi durante as lentas viagens para El Caguan, através de uma estrada imprevisível que rompia as matas da região – ela guiava carros pesados como uma profissional – que do seu passado soube aquilo que me contou. O suficiente para eu entrever nela uma personagem de novela que irradiava uma intensa alegria de viver.
Em Eliana encontrei uma revolucionária de outro tipo. Responsável pela intendência, ocupava-se com zelo de tudo o que se relacionava com o abastecimento do acampamento. A sua beleza não era física. De meia idade, entroncada, brusca nos movimentos, alcançara o grau de sub-comandante e o seu currículo de combatente dissipava dúvidas sobre os méritos da guerrilheira. Era de poucas falas, mas, ao volante de um caminhão, respondia com rapidez e segurança às perguntas que eu formulava sobre a história das FARC e a organização do acampamento.
Yurleni, a rancheira, projetava a imagem de uma jovem camponesa desinibida, faladora, com uma espontaneidade tocante. Passava o dia na cozinha preparando as refeições dos convidados. Quando apreciávamos um prato de caça ou uma especialidade colombiana, reagia tão efusivamente que até comunicava o fato ao seu papagaio palrador, empoleirado num arbusto, ao lado do bidão da água, no terreiro por onde deambulavam galinhas e o quati, mascote da guerrilha. Yurleni tinha um companheiro, John, e dizia ser mais feliz do que algum dia pudera imaginar. Menina, tinha uma obsessão: ser soldado. Mas acabou nas FARC quando percebeu que era mentira o que delas contavam e que a guerrilha era, essa sim, um exército de heróis, como outro não existia.
Em Isabel, a historiadora, descobri uma romântica. Foi a ideologia, absorvida na universidade, que a empurrou para as FARC. Encontrava-se no umbral de uma vida de comodidades, já com um mestrado e trabalhando numa organização internacional que lhe garantia um salário mensal de quase 2000 dólares quando...
Ela hesitava ao chegar aí e eu interrompia, tentando descer às raízes da opção que a fizera mudar de rumo.
– O tempo de reflexão foi breve – respondia –. Eu sentia um nojo crescente pelo tipo de vida que se abria para mim. Não queria ser triturada pelo sistema. O apelo foi irresistível. Ajudada por amigos, vim para às FARC, que eu admirava sem as conhecer...
Isabel mantinha longas conversas comigo. Os temas ideológicos fascinavam-na e encontrou em mim um interlocutor. Após um ano, sentia-se ainda uma iniciada. Cumpria exemplarmente todas as tarefas, verifiquei que atirava muito bem, mas a insegurança atormentava-a.
A beleza de Isabel chamava a atenção pela suavidade. Tinha uma pele muito branca, uns olhos enormes, luminosos, e um corpo onde tudo parecia certo pela forma e a proporção. Do conjunto desprendia-se irrealidade.
Um dia, perguntei-lhe porque, sendo tão bela, não tinha companheiro. Levou tempo a responder:
– Sabes, isso faz-me sofrer. Mas não pelo que possas pensar. Alguns camaradas já me perguntaram por que os recusei. Pensam que é uma atitude de classe, mas o motivo é outro. Eu faço uma idéia muito grande do amor e ainda não encontrei alguém que me abra ao amor...
Naturalmente Glória, Eliana, Jenny, Adriana, Yurleni, Isabel eram nomes de guerra. Desconheço-lhes os nomes verdadeiros.
Na sede das FARC, em San Vicente del Caguan, conheci outra guerrilheira, a Nora, da qual conservo, nítida, na memória a lembrança de alguém que me apareceu como símbolo das mulheres das FARC.
Ela estava então na legalidade relativa da época e por isso publiquei-lhe o retrato numa reportagem. O companheiro tinha caído em combate pouco antes.
Nora atendia na recepção todos os estrangeiros que chegavam à Zona Desmilitarizada. Apareciam ali muitos jornalistas que pretendiam entrevistas com os dirigentes mais destacados das FARC, incluindo Manuel Marulanda, o legendário Tiro Fijo, cuja morte fora anunciada vinte vezes por sucessivos governos. Era difícil a tarefa, mas Nora resolvia os problemas mais delicados. A voz e a doçura da guerrilheira desarmavam o protesto, quando os visitantes não obtinham o que pretendiam. Fundia uma suavidade tocante numa firmeza de combatente veterana.
Fechava-se quando as minhas perguntas incidiam sobre o seu mundo interior. Nunca me falou do companheiro perdido, mas a palavra tristeza subia na minha memória quando a escutava. No dia em que me despedi, dei-lhe um par de botas e uma lanterna. Indispensáveis na selva, não teriam mais utilidade para mim.
– Podem ser úteis para algum camarada – comentei quase envergonhado.
Nora abraçou-me, sem uma palavra, e o seu gracias compañero chegou acompanhado do único sorriso que lhe vi esboçar naqueles dias.
Hoje, quando leio ou escuto calúnias sobre as FARC, o meu pensamento viaja para as selvas e montanhas da Colômbia. No turbilhão de imagens que então me envolve não é sem comovida admiração que revejo as guerrilheiras que ali conheci. Aquelas mulheres aparecem-me como símbolo da confiança na transformação revolucionária da vida.

http://www.avante.pt/noticia.asp?id=6514&area=19

http://resistir.info/


video


(CARTA CRUEL A UMA AMIGA)

QUERIDA DEIZI:

Hoje, 19 d’abril de 1994, terça-feira...
Levianamente decretaram que este dia é dia de índio (os demais dias são dias de cara-pálida), e assim está decretado: índio tem apenas um dia para ser comemorado pelas instituições assistencialistas.
Hoje, porém, depois de tantos anos estou longe da selva; longe de nativos; longe de igarapés; longe de garimpos; longe de guajarás; longe de jacarés... longe de mim mesmo... Também, longe de ti... dos nossos.
Já aqui, indescritíveis formas, intraduzíveis vultos, enigmáticas figuras apenas confirmam o que já era certeza: homo-reshus, primatas preênseis, compatibilidade cromossomática, idêntico desprendimento de amônia, órgãos vitais intercambiáveis, comportamentos sócio-comunitários idênticos – antropóides ramapthecus – resumidamente é isto que somos: MACACOS. Com a única diferença: somos os únicos que se encarceram uns aos outros.
Estas reflexões têm me possuído desde o dia quinze último, quando correu por aqui a notícia: “Dona Leonildes Cruz da Silva, 63 anos (eles adoram números!), é manchete na imprensa internacional – DE OLINDA PARA O MUNDO”.
Dona Leonildes, há oito anos, sobrevive (juntamente com toda a família) comendo carne humana – antropofagia? Digamos: canibalismo?! – Não!!! miséria humana mesmo!
A carne humana com que Dona Leonildes sobrevive com a família é catada do lixo hospitalar de Olinda. São “dejetos cirúrgicos” (restos humanos): placentas, seios, coxas, pernas, braços... fetos, recém-nascidos...
Te choca, Amiga, se eu disser que esta notícia não me chocou tanto?
Já presenciei monstruosidades piores produzidas pela miséria capitalista.
Mas não justifica eu não me chocar tanto? e eu deveria me chocar assim mesmo?
Sim, Amiga; porém, não tanto quanto me choca ver que o que foi notícia não foi a miséria e suas vítimas... Não, Amiga! Isto por aqui já não é mais notícia. O que mereceu destaque da mídia foi que Dona Leonildes teve o atrevimento de adoecer e reclamar de um seio humano – e aqui deve ter pairado uma terrível dúvida, pois não se sabe se era de moça virgem ou de moça mulher! – que comera e lhe fizera mal.
Segundo Dona Leonildes, quando aferventava o seio notou que o mesmo espumava “além do normal”, Amiga. E onde está o anormal, Amiga? Manda-me dizer que eu já não o sei. Mas Dona Leonildes argumentou: “Eu comi porque todos comeram e não fez mal a ninguém, nem ao pequeno de braço. Então, não foi o peito não; é que eu já tô velha mesmo”!!!
Vê só, Amiga, que atrevimento; que vexame logo em ano eleitoral?!?! Pobre é mesmo inconveniente, não é? e isto deve ser coisa de comunista só para badernar o democrático processo eleitoral brasileiro – quiçá mundial!
Seria preferível, Amiga, crer que isto é coisa de subversivo ameaçando a segurança nacional da pátria-livre...
Pensei – mesmo necessitando muitíssimo – em não te escrever estas imundícies, mas tenho aprendido muito contigo, como por exemplo: “não se filtra notícias para os amigos”.
Então, divido contigo o mal-estar, Amiga.

Como podemos nós mesmos governar o mundo sem delegarmos poder a corruptos?

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