quinta-feira, 5 de julho de 2007

CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE E OUTRAS AGONIAS




F. ANTENOR GONSALVES


CANÇÃO DA AGONIA
DA NOITE
E OUTRAS AGONIAS

POEMAS
Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Gonçalves, F. Antenor
G626c Canção da agonia da noite e outras agonias / F. Antenor Gonsalves.
São Paulo: EDICON, 1986.

1. Poesia brasileira I. Título.
86-2132
CDD-869.915

Índice para catálogo sistemático:

1. Poesia: Século 20 – Literatura brasileira 869.915
2. Século 20: Poesia – Literatura brasileira 869.915

Todos os direitos reservados de acordo
com a legislação em vigor

Impresso no Brasil.

Ref.: 8.692.

“Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas,
Trocar tapetes e salas
Por um alcouce cruel,
Vem comigo, mas... cuidado...
Que o teu vestido bordado
Não fique no chão manchado,
No chão do imundo bordel.”
Castro Alves.


Este livro tem um destino: aos que crêem na paz, no socialismo e no ser humano – especialmente para quem me deu apoio necessário quando fui seqüestrado, a mando do juiz (de direito?) Donado Ojeda, da 1ª vara da comarca de Cáceres – MT. Para quem não se curvou aos gritos de terror do ten. coronel Zamith, então comandante do 66º Batalhão de Infantaria Motorizado, quando pelo serviço de som daquele quartel, alertava os seus subordinados para o “perigo” que eu representava naquela “área de segurança nacional”, e quando, despoticamente, mandou recolher o meu livro ANACORETAS.
O autor.


"O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa
Não examinava, nem cheirava
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão
Não era gato
Não era rato.

O bicho, meu Deus, era um homem!”
Manuel Bandeira.


ÍNDICE:

Denúncia.................................................................................. 11
Cartas de Pedro Casaldáliga...................................................... 13

CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE

Canção da Agonia da Noite........................................................ 18
Dilaceradamente....................................................................... 19
Funeral de Setembro................................................................. 20
Quando Estávamos Sós............................................................. 21
Estás em Mim.......................................................................... 22
Era Antes................................................................................. 23
Um Louco Querer...................................................................... 24
Aversão.................................................................................... 25
Si La Ban Do............................................................................ 26
Voltaseca................................................................................. 27
Um Poema Erótico Pela Revolução Brasileira.............................. 29
Porque Parti............................................................................. 30

...E OUTRAS AGONIAS

Apoteose de Uma Lágrima......................................................... 32
Faca de Corte........................................................................... 34
O Canto das Raças (Poema Negro)............................................ 35
Perfil........................................................................................ 36
Último Samba em Nova Iorque ou: O Último subversivo.................37
José e o Rei (Sete Vacas Magras) e... (Sete Vacas Gordas).........38
Operariopatrão.......................................................................... 40
Temporada............................................................................... 41
Os Homens do Torto.................................................................. 42
Mãos........................................................................................ 43
Sangria..................................................................................... 44
Entre Mortos e Desaparecidos................................................... 46
Prelúdio Para Depois.................................................................. 48
Prece Pela América Latina......................................................... 49
Que País É Este?...................................................................... 51
Mãos Opostas........................................................................... 53
Um Canto de Dor...................................................................... 55
Reação.................................................................................... 57
Vultos da Seca.......................................................................... 58
O ABC do Capital e da Reação.................................................. 61
Mugem as Vacas e os Coronéis.................................................. 62
Mal Crônico............................................................................... 63
Palmares em Outros Dias.......................................................... 64
A los Mineros de la Sierra......................................................... 65
Nos Confins dos Brasis.............................................................. 66
Metalética e Diafísica................................................................ 67
No Bagaço do Engenho............................................................. 68
Contagem Regressiva............................................................... 69
Sombras Noctívagas.................................................................. 70
Ao Poeta do Povo...................................................................... 72
Há Um Povo.............................................................................. 73
A Velha História de Um Povo..................................................... 74
Mote Nº 1.................................................................................. 75
Mote Nº 2.................................................................................. 77
Mote Nº 3.................................................................................. 79
A Bem Dizer Não Há História..................................................... 81
Os Retirantes............................................................................ 82
A Guerrilheira........................................................................... 83
Pagarás o Dízimo?.................................................................... 84
Deusote.................................................................................... 86
Assim É o Meu Deus................................................................ 87
Antagonismo............................................................................. 88
Festa Latina.............................................................................. 89
O Canto da Terra-Ninguém........................................................ 91
Made in Brazil........................................................................... 92
Prenúncio de Um Novo Dia........................................................ 93
Populoris................................................................................... 95


DENÚNCIA

(Aos Chilenos e Paraguaios)

Eu sou de um país onde “sempre livre”
é absorvente para higiene feminina.

Eu sou de um país onde a justiça é cega,
o parlamento é mudo e o executivo é surdo.

E como já disse, eu sou de um país onde a “justiça é cega”:
(vistes o caso dos inocentes condenados a vinte anos de prisão
nos cárceres da burguesia,
por interesses escusos de juízes também cegos e escusos?)

Eu sou de um país onde “liberdade” é nome de praça
(e o pior é que em meu país a praça não é do povo
“como o céu é do condor”).

Eu sou de um país onde os três poderes são exercidos pelas três
armas
e o “quarto poder” é paramilitar:
bichos encapuzados metidos nos porões,
agindo na noite – torturando, trucidando, matando...
matando... matando... matando... matando...

Eu sou de um país onde é tão grande a quebradeira
que os mandatários governam por “emendas”
ou simplesmente decretam leis.

Eu sou de um país onde infância e marginalização se confundem
nas ruas.

Eu sou de um país onde policiais e marginais exercem a mesma
atividade.

Eu sou de um país tão frágil e inseguro que um simples operário
(poeta nas horas vagas – subversivos todas as horas)
pasmem vocês! foi acusado de ameaçar a “segurança nacional”
da pátria-colônia.

Eu sou de um país onde, não faz muito tempo, me proibiram ser
do meu país.
O autor.


CARTA I

São Félix do Araguaia, MT.
1º de março, 1986

F. Antenor Gonsalves
Guajará-Mirim – RO.

Querido amigo e companheiro de Esperança,

Finalmente, teu livro; e minha carta. Obrigado pelo envio e pela confiança que você deposita em mim; pela amizade já.
Canção da Agonia da Noite e Outras Agonias é um livro intenso e diferente e diversificado. Nos teus poemas há valores diversos: o social/político (sempre legitimamente amargo e pela experiência vivida!) é mais intenso, mais real.
Importante – para mim – esse acento latino-americano que perpassa tua obra. Somos o Continente.
A terra, as vacas, presentes, vividas.
E a Ditadura dos coronéis e generais!
E o Nordeste!
Sei que essa Amazônia não está fácil, com as migrações e a politicagem local e a violência. Agora o país todo, de “cruzado”. Vamos ver...
Em todo caso, irmão, a esperança seja maior.
Com um abraço do amigo,
Pedro Casaldáliga.

CARTA II

Goiânia, 17, maio, 86

F. Antenor Gonçalves
Guajará-Mirim, RO.

Querido amigo e companheiro de luta e de esperança sempre. Estou escrevendo desde Goiânia, de passagem, regressando do Norte de Goiás, onde enterramos mais um mártir da Terra, o companheiro de todas as horas, Pe. JOSIMO MORAIS TAVARES. E estou indo para o interior da Prelazia, em visita pastoral.
Antes de sair para o Bico do Papagaio, busquei e rebusquei teus originais. Andava eu muito atarefado, nestes dias, porque além do serviço de rotina, estava ultimando o meu livro sobre a Nicarágua. E... não consegui encontrar os originais. Entre o correio, primeiro, e a bagunça circunstancial depois, você, teu livro, saíram apanhando. Me desculpa, Antenor!
Para não demorar mais, com novos envios tão demorados sempre nas nossas regiões, eu te sugiro uma solução: publica como apresentação minha carta. Certo?
Seguimos na batalha diária.
Unidos, sempre perto do Povo e a Esperança sempre maior do que o cansaço.
Antenor, recebe mais uma vez o abraço da amizade deste companheiro de caminhada,
Pedro Casaldáliga.

O pior uso que se pode fazer da liberdade é abdicar dela.
Victor Hugo.

Outrora, na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentaram. Tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim mesmo, imediatamente intervir na política.
Platão (cerca de 354 anos antes desta era).

CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE

Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.
Che Guevara.

CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Qué importa que mi amor no pudiera guardala.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Pablo Neruda.

Noites.
Sorumbáticas noites.
Melancólicas noites não dormidas.
Noites veladas, choradas, sofridas.
Noites sem mim, sem ti, sem nós, sem ELA.
Noites de solidão;
De imagens fantasmagóricas velando-me os passos.
Sombrias – infinitas noites!
Noites de um só.
E se morrer em meio à noite quem me dará o último adeus?

Noites.
Nostálgicas noites.
Hipocondríacas noites de um só.
Noites de tempestades íntimas e calmarias hibérnicas.
Noites triturantes, desgastantes, corrosivas, deflorantes.
Minhas negras noites escuras passadas em claro
Onde sempre (infalivelmente) me deparo
Com todos os fantasmas dos meus sonhos.

É a angústia dos que ficam sós na noite
E em meio à noite não conseguem povoar a sua solidão
Com as imagens desvanecidas do passado e do porvir.
É o filho da noite que, agonizante,
Chega ao proscênio telúrico do teatro vazio
Quando já não há mais ninguém para lhe aplaudir.

Pois é noite – a noite das noites tristes!
A noite do filho da noite que, ao som melodramático
Do vento da noite, canta o seu canto noturno.
Pois é noite!
A noite dos tristes. Dos sós.
A noite dos que cantam a
CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE.

Cáceres, 21 de abril de 1982.


DILACERADAMENTE

Se os meus olhos te incomodam... fura-os.
Assim te amarei: cegamente!
Se o meu amor te incomoda... odeia-me.
Pois mesmo assim te amarei: loucamente!

Se o nosso encontro te incomoda... esconde-te.
Assim te amarei: perdidamente!
Se crês que o meu amor é pequeno... pede-me mais.
Assim te amarei: infinitamente!

Se te parece cedo o meu amor... repudia-me.
Mas te amarei assim mesmo: eternamente!
Se o meu coração te incomoda... parte-o.

Assim te amarei: dilaceradamente!
Se o meu amor não te agrada... mata-me.
Pois morrerei assim mesmo: apaixonadamente!

Patos, 19 de julho de 1979.

Apesar do verso livre e da insujeição às formas clássicas do soneto (petrarquiano, espanhol, inglês), este seu “soneto” é excelente pela originalidade das imagens líricas. Trata-se de um belo trabalho pela força expressional – singular do poeta.
10/IV/84
J. G. de Araújo Jorge.


FUNERAL DE SETEMBRO

Estou só – amargamente só!
Cadavericamente só!
Milenarmente só!
Estatuamente só!
Unicamente só!
Só de mim mesmo, e pasmo!
Contemplo um casal de mosquitos pateticamente
E vejo-os no sacrossanto instante do orgasmo.

E continuo só e amargamente só.
Só na dor; só na tristeza;
Só na alegria; só no prazer...
Só como um leproso de quem todos fogem.
E subitamente descubro que, a contragosto,
É melhor mal acompanhado do que só.

Cáceres, 07 de setembro de 1980.


QUANDO ESTÁVAMOS SÓS

Estávamos sós – sós no mundo.
E sós éramos tudo.
Éramos tudo entre todos.
Eu, todo teu – só teu!
Tu, toda minha – só minha!
E assim tínhamos tudo.

Tínhamos tudo, então:
Eu, teu amor e teu corpo;
Tu, meu corpo e meu amor.
E o instante, quando sozinhos,
Era tudo: amor, loucura e sexo.
E aí, então, sozinhos,
Nos enchíamos de nós dois mesmos
E nosso mundo se povoava de tudo.

Estávamos sós – não de nós mesmos, –
Que era, então, tudo para nós.
E assim, a sós,
Eu me povoava de ti
E tu te povoavas de mim.
E assim, a sós, tínhamos tudo.
Éramos tudo, então.

Paraguai, 25 de janeiro de 1981.
(domingo)


ESTÁS EM MIM

Tenho em minhas noites tristes de solidão
Povoado a casa vazia com a imagem do teu ser distante
E nestas horas de saudade angustiante
Tenho procurado desvairadamente abraçar
O teu corpo febril de desejos.

Tenho em minhas noites tristes
A companhia consoladora do teu fantasma
Pois estás aqui: posso te ver, te sentir...
Estás ao meu lado.
És minha sombra que me acompanha passo a passo.
Agora mesmo estás aqui – indubitavelmente estás aqui –
Pois és todo o meu pensamento e todos os meus sentidos.

Agora mesmo estás aqui, pois o coração pulsa por dois
Numa taquicardia que também só me lembra de ti.
Estás aqui comigo e estarás até a minha morte.
Estás aqui e aonde quer que eu vá irás também comigo
Como uma cicatriz, como uma tatuagem, como uma marca
profunda,
Como pegadas ou mesmo como o sangue que segue
infalivelmente o corte.

E sabes por que estás comigo agora e estarás sempre?
É porque eu sou aquele que não conseguia dormir
Com o barulho enlouquecedor dos grilos
E sou também aquele que, matando os grilos,
Não mais conseguiu viver.

Estás e estarás sempre comigo
Porque me és a própria vida
E te esquecer seria o mesmo que morrer por dentro.
E te esquecer seria como marchar sobre uma ponte caída.
E te esquecer seria antes morrer em vida e só
Ou mesmo ser consumido aos pedaços, lentamente.

Santa Inês (MA), 26 de agosto de 1983.


ERA ANTES...

Era antes um ponto invisível num infindável infinito
E foi-se avolumando e tomando forma;
E foi ocupando um espaço cada vez maior;
Ε foi-se avolumando... avolumando...
E hoje é este gigante imenso
Que às vezes até mesmo penso
Que seja a isto que chamam “amor”.

Eram antes os teus braços, tua boca entreaberta,
Teus olhos cerrados, tuas mãos pelo meu corpo,
As palavras sussurradas entre beijos ardentes
E afagos enlouquecedores
Que nos enchiam do mais gostoso prazer.

Éramos antes um só corpo em uma só cama;
Uma única vontade e um só sentimento.
Era antes o desejo louco – sem escolher o momento,
Sem admitir desculpas, sem entender razões.
Eram antes dois descontrolados corações
Pulsando no mesmo ritmo e compasso.

Mas hoje!...separados como cristais partidos
Nem sei se cada fragmento conserva o gosto do licor
Que antes, no banquete fora servido.
Nem sei se para outro murmuras os teus doces gemidos
Como antes murmuravas nos meus ouvidos
E que me deixavam louco de prazer.

Mas hoje!... há um oceano que nos separa,
Um mar que naufraga nossos sonhos e desejos
E há ainda a marca profunda e indelével
De uma mulher incomum, única, rara.
Há hoje tua imagem que me persegue
E uma lacuna imensa a que nada socorre,
E neste vazio, um eco: – “Corre! Corre! Corre!”
Para os braços dela?! – “Sim. Corre! Corre! Corre!”.

12 de setembro de 1983.


UM LOUCO QUERER

Feito a aranha que devora o macho quando sacia o sexo
É assim que tu me queres e é assim que eu te quero.
Feito um potro pelos campos vastos e ermos
Desvairadamente correndo atrás da fêmea no cio
É assim que eu te quero e é assim que tu me queres.

Feito fera com as garras enterradas em minhas carnes
Me retalhando assim, me rasgando assim,
É assim que eu te quero e é assim que tu me queres.
Feito animal lambuzado de saliva e sexo
É assim que tu me queres e é assim que eu te quero.

Como serpente contorcendo-se de prazer na cama,
Em movimentos insinuantes e sensuais
É assim que eu te quero e é assim que tu me queres.
Como loucos ou mesmo como animais
É assim que nos queremos iguais.

Como abismo escancarado ante mim
Onde a ânsia, o desejo e o prazer de penetrá-lo
São maiores que o medo de morrer,
Assim é teu corpo na cama
Em noites de prazeres incontidos e desenfreados desejos.

Como punhais assassinos e traiçoeiros
São os teus braços quando me abraçam
Mas é assim que eu quero e é assim que tu me queres.
Como chamas que devoram a madeira seca
É esta paixão (este sentimento misterioso – este amor?)
Que me devora com suas ardentes chamas,
Pois é assim quando eu te quero e quando tu me amas.

Como náufragos que buscam a praia
É assim que nos buscamos ansiosamente.
Como o faminto que pega o substancioso prato
Assim nos devoramos louca e avidamente.

15 de junho de 1983.


AVERSÃO

Entre um poema e outro poema
Correm rios de sangue.
Entre uma mão e outra mão
Correm versos de aço.

Entre um rio e outro rio
Correm poemas de sangue.
Entre um verso e outro verso
Correm mãos de aço.

Entre um sangue e outro sangue
Correm rios de poemas.
Entre um aço e outro aço
Correm mãos de versos.

Entre uma mão e um poema
Há um verso de sangue.
Entre o sangue e o rio
Há uma mão de aço e um poema sem verso.

Cáceres, 03 de janeiro de 1983.


SI LA BAN DO

Igual ao rifle, à metralhadora e ao punhal, a poesia é também uma arma do povo.
Jorge Amado.

Poema é pá
Poema é pé
Poema é pi
Poema é pó
Poema é pu...

Poema é sangue
Poema é suor
Poema é terra
Poema é luta
Poema é chão
Poema é meta
Poema é pão
Poema é povo
Poema é garra
Poema é arma

Poema é pu
Poema é pó
Poema é pi
Poema é pé
Poema é pá

Poema é tudo porque
Poema é VIDA.

Teresina (PI), 12 de junho de 1983.


VOLTASECA

Rios caudalosos – já no ano atrasado, –
Transbordando sequidão e sede de chuva.
Braços quebrados – a terra se rachou – .
Leito de esperanças onde repousei
– Mais uma vez – com a última amante,
Sequiosa de amor e sexo!

Rios de esperanças ressequidas;
E como se tivesse absorvido a última lágrima
Já não resta mais nem mesmo a esperança.
O rio transbordou (no ano atrasado!)
E levou consigo todo o verde.
(O rio transbordou de esperanças e desilusões!).

Mas não havia rio – havia apenas o leito,
No qual repousei quando da última vez –
Já que era a noite nupcial dos desvalidos;
E como dois desvalidos
Nos sorvemos a um só trago
Já que era a nossa última noite.

Não restou nada! qualquer que fosse esse nada.
Qualquer que fosse esse nada
Do rio que foi aquele só areia restou.
E cada grão é equivalente a uma ilusão ressequida.
Rio que passou como a última enchente
E levou consigo toda a pastagem.

Foi no ano atrasado, quando houve o último inverno...
Desde aí, quantas lágrimas já se foram!
E cujas lágrimas teriam dado para transbordar quantos rios!?
Já passaram quantas dores!? Quantas lágrimas!?
E quantos amantes já morreram de fome
Desde que os rios secaram!!!?

Advieram tristezas – é certo! –
Umas permaneceram, outras passaram; advieram outras.
Umas deixaram cicatrizes; outras levaram membros;
Outras nem foram levadas em conta;
Outras arrombaram açudes
Mas nem por isto mesmo
As águas deixaram de correr para o mar.

Pombal, 18 de maio de 1981.


UM POEMA ERÓTICO PELA REVOLUÇÃO BRASILEIRA

É certo que não me farto dos teus seios belos e fartos
Que dão a grata sensação
De quem tem muito ou quase tudo nas mãos,
E muito menos desse teu corpo feminino
Onde eu brinco feito um menino
E tenho a sensação de ter o mundo nos braços.

É certo que toda vez que percorro febril
Todas as minúcias do teu corpo
Eu enlouqueço de prazer e desejos.
E é no delírio do sufoco dos teus beijos
Que eu encontro fôlego para mais uma jornada
Quando nossos corpos se esfregam
Indiferentes ao sono e à madrugada.

É na cama, é no chão, é na mesa...
Em qualquer lugar que o teu corpo esteja.
É assim feito a fera e a presa:
– Vou te devorar todo, toda, tudo...
E só largarei quando saciada, saciado...
E é assim como a gata e o gato no telhado.

Quando abres as pernas e te montas em mim
E já ávidos de desejos nos buscamos
E tu te contorces assim... assim... assim...
E nesta loucura, nesta ânsia, neste êxtase supremo
Os nossos corpos são apenas um,
Onde eu te aperto e tu me apertas
E assim, metido entre tuas pernas abertas,
Concluímos que nada há além do que há entre nós.

Santa Inês (MA), 27 de agosto de 1983.


PORQUE PARTI

Quando no teu despertar matinal
Não vires mais meus olhos nos teus
Nem minha roupa estendida no varal,
É porque parti.

Quando não houver mais ninguém te esperando na cama
Com os olhos cheios de amor e esperanças,
Assim, atirado aos teus pés, feito um cão que te ama,
É porque parti.

Quando não houver ninguém para quebrar tua rotina,
Quando não houver ninguém nem mesmo para te aborrecer,
Quando não houver ninguém nem mesmo para te pedir uma
aspirina,
É porque parti.

Quando não houver ninguém te esperando pelo caminho,
Por aí, feito um louco atrás de ti,
Ou mesmo no ouvido te falando baixinho,
É porque parti.

Quando não houver ninguém para te amar
Com o amor mais louco que houver,
Ou quando não houver ninguém para olhar no teu olhar,
É porque parti.

Quando não houver mais ninguém para te sorrir e te querer
Assim como eu te quero loucamente
E quando a saudade fizer parte do teu ser,
É porque parti.

Quando do teu pedestal
Vires que não há ninguém te amando à minha maneira,
Assim, louco, feito animal,
É porque parti.

28 de maio de 1983.


... E OUTRAS AGONIAS

(Inútil terra que só tem servido para enterrar os seus mortos.)
J. G. de Araújo Jorge.


APOTEOSE DE UMA LÁGRIMA

Mas quem me dera uma lágrima – uma só! –
Pelos corpos insepultos; pelas crianças famintas;
Pelos homens incultos; pelas mulheres perdidas;
Pelas guerras sangrentas e indevidas.

Mas que me dera uma lágrima – uma apenas! –
Por todas essas mulheres de Atenas.
Pelos moleques da rua (ai de mim!)
Mas como eu queria que fosse assim!

Eu queria uma lágrima para chorar por Deus;
Chorar pelos meus e pelos teus.
Eu queria pelo menos uma lágrima para chorar por mim.
Uma lágrima pelos ladrões, viciados e marginais.

Eu queria uma lágrima para chorar pelos demais...
Ah! quem me dera uma lágrima – somente uma! –
Para chorar pelos que têm nome e pelos que têm alcunha;
Pelos que lavram com máquina e pelos que lavram com unha.

Eu queria uma lágrima – uma tão-somente! –
Para chorar pelos loucos; pelos dementes;
Pelos parentes; pelos aderentes; pelos ausentes;
Pelos presentes; pelos ateus e pelos crentes;

Pelos pingentes; pelos decentes e indecentes.
Ah! eu queria uma lágrima pelos tiranos;
Pelos meus acertos e pelos meus enganos;
Pelos gregos e pelos troianos.

Pelos corpos mutilados, retalhados;
Pelas mulheres famintas e esfarrapadas;
Pelas crianças abandonadas (tão abandonadas!),
Pelos bêbedos atirados às calçadas.

Pelas consciências e honras compradas;
Pelas mocinhas: coisas-e-finas, depravadas;
Pelos governos tirânicos e corruptos;
Pelos termos absolutos e abruptos.

Eu queria uma lágrima ao menos por mim:
Uma lágrima bem sentida; bem chorada;
Sincera, aberta; e por que não escancarada?
Uma lágrima por mim, outra por Abel e outra por Caim.

(Classificada em 1º lugar em Concurso de Poesias, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo de Vilhena Rondônia).

São José dos Campos (SP), 12 de junho de 1980.


FACA DE CORTE

Atinos de facas afiadas em mãos calosas
Que vão rompendo o ventre do próprio destino.
Delírio de enxadas que sangram as veias da terra
À procura de novas fontes.
Fúria de foices rompendo cercas que marcam quintais.
Angústia de martelos malhando em ferro frio.
Solidão de punhais – em lutas desiguais –
Querendo vingança.
Luxaria de navalhas retalhando a carne.
Indiferença de máquinas que moem dedos, mãos, braços,
Cabeças, troncos, membros, lingüiças, pastéis...
Fome de esmeril no primeiro corte.
Sorriso de dentaduras postiças e bocas banguelas.
Deleite de serras rompendo todas as grades:
É o último preso que agora se evade.
É o último cativo partindo a última corrente.
É o povo lutando, produzindo, morrendo...
E agora, conquistando sua própria liberdade.

(Letra da música classificada em 1º lugar no Festival Mato-grossense de Música Universitária, no ano de 1982).

Recife, 06 de maio de 1981.


O CANTO DAS RAÇAS (POEMA NEGRO)

A dor que tu negas, e calas, e abafas, e consentes, e escondes
Tu a confirmas para ti, tu a fazes gritar em ti.
A dor que tu calas no peito, no bolso, na barriga, nas veias...
Ela renasce no povo, nos bares, nas fábricas, nos trabalhadores,
Nos explorados, nas mulheres usadas, nos oprimidos.

A dor que te consome e que te curva e te prostra
E que tu a embriagas em taças largas,
Em largas taças a terás de tragar
Nas noites mais tristes e mais revoltantes que houver.
Tu terás de pisoteá-la na primeira passeata dos revoltados e
desvalidos.

Mas quando soar o último tambor da última marcha dos
opressores
Terás então expulsado a última bactéria, o último vírus,
O último parasito
Do teu corpo, da tua casa e da face da terra.
Tu estarás imune e todas as dores terão passado
Pois o passado terá enterrado em si todas as opressões.

E teu peito, negro, será o ninho de todos os oprimidos;
Será o berço de todos os sonhadores redimidos.
E o teu sonho, negro, atingirá todas as formas,
Todas as dimensões, todas as cores.
Aí, tu cantarás um suave canto de liberdade
E teu canto, negro, será o canto de todas as RAÇAS.


Para ti, Bosambo, assassinado pelo preconceito dos homens: pois eles também tinham medo de tua sensibilidade e de tua revolta, já que nós, os “negros”, ainda trazemos no pulso as marcas das algemas e das correntes, e nas costas as chagas deixadas pelo chicote do capataz.
Eu queria ser criança ou mesmo um debilóide inconsciente para não sentir tão profundamente a orfandade de tua partida.

29 de setembro de 1983.


PERFIL

Na cara lisa não criou vergonha
Mas já não tá tão lisa a cara,
Pois já se moldam as primeiras rugas.
A camisa aberta ao peito já se abriu nas costas.
Aqueles passos tão firmes, hoje precisam de muletas
Para cambalear entre paralíticos.
Aquelas mãos tão caritativas, agora apenas mendigam.
Aquele bolso tão farto outrora... quem dera!!!...
O dente de ouro que devorou tantos pratos gostosos
Foi vendido para comprar a última ceia.
Ah! já lá vai um bom tempo desde a última ceia!

Cáceres, 27 de setembro de 1981.


ÚLTIMO SAMBA EM NOVA IORQUE OU
O ÚLTIMO SUBVERSIVO

Libranos de aquel que nos domina em la miséria.
Victor Jara.

Luís seria o último morto de fome
Maria seria a última criança abandonada
Ruth seria a última prostituída
Antônio seria o último mendigo
José seria o último explorado
Dina seria a última massacrada
Carlos seria o último torturado
Vanda seria a última favelada
Severino seria o último analfabeto
Mãe Preta seria a última discriminada por ser negra e mulher
Lúcio seria o último trombadinha
Carmem seria a última mãe aflita
E Orlando seria o último delinqüente
Se Mr. John fosse o último patrão;
E aí, por não haver mais motivo,
Eu seria então o último SUBVERSIVO.

Brasília, 05 de outubro de 1983.


JOSÉ E O REI
(SETE VACAS MAGRAS)

Mulheres magras – magras mulheres;
Mulheres pálidas – mulheres anêmicas;
Pálidas mulheres – mulheres magérrimas;
Pobres mulheres pobres e transparentes;
Mulheres doentias e pernas trôpegas;
Cambaleantes mulheres apocalípticas;
Mulheres desalinhadas, chupadas, sugadas, sofridas...
Pobres mulheres e filhos a tiracolo e languenzos;
Pobres mulheres lânguidas e desdentadas;
Pobres mulheres assalariadas;
Pobres mulheres do Brasil.

Mulheres fantasmagóricas.
Mulheres volúveis na cama e na mesa.
Pobres mulheres que se fazem presas
Do sistema, do cavalo e do cavaleiro.
Mulheres esfarrapadas, moídas, enganadas...
Pobres mulheres angélicas, evangélicas e angelicais.
Pobres mulheres iguais – sempre iguais.

E...
(SETE VACAS GORDAS)

Mulheres bem nutridas e sorridentes.
Bocas arreganhadas mostrando os dentes
Finos, bem tratados, caros e reluzentes.
Mulheres fartas – fartas mulheres.
Mulheres finas – senhoras madamas.
Mulheres festivas – senhoras palacianas...
Gordas mulheres das bacanais – as bacanas!...
Mulheres dos motéis, das jóias caras – raras!...
Nos carros; dos carros; dos anéis; pelos anéis...

Mulheres brilhantes, coloridas, aconchegantes,
Bem prevenidas: – “Trouxe o talão de cheques?”
– Sem essa! Sem grana eu não fico com você.
Mulheres dos carrões, dos barões, dos ladrões...
Mulheres dos machões, dos puxões...
Mulheres dos milhões, dos biliões, dos canastrões.
Mulheres das mesas fartas e das camas vazias.
Pobres mulheres dos nossos patrões.

Cáceres, 19 de setembro de 1981.


OPERARIOPATRÃO

O dedo que a máquina engoliu foi quase nada!
(Segundo o patrão, “vão-se os dedos e ficam os anéis”).
A máquina quis mais: engoliu-lhe a mão.
(Segundo a Previdência, não faz mal,
Já que foi a da esquerda).
A máquina estava viciada: devorou o membro inteiro.
Mas, segundo a sociedade, aquele sobejo da máquina
Deveria ser vomitado do seu seio como coisa imprestável.

Aquele membro que a máquina devorou foi quase nada
Já que aquele operário foi substituído, prontamente,
Por outro bem mais moço e mais produtivo.
Aquele homem inutilizado pela máquina não tem nada não!
Segundo a sociedade de consumo, se ele vier a morrer,
Ora, bolas! Será uma boca a menos.
O sangue daquele homem, derramado entre as engrenagens.
Daquela máquina fria e voraz,
Segundos os tecnocratas, foi muito útil
Para lubrificar o maquinário tão útil e produtivo.

(Para Isaías Antunes, quase devorado pela
máquina).

Crato, 06 de junho de1981.


TEMPORADA

Amojadas as éguas,
Prenhes as vacas,
Fogosos os machos,
Ciosas as novilhotas,
Enjeitados os filhotes
E mancantes as mulas:
Assim começara janeiro e o ano.

Éguas relinchando,
Cabras magras pastando,
Carneiros pelo pátio da casa-grande berrando,
Meninos barrigudos roubando tudo que vão achando
Para a fome enganar.

Meninas acanhadas olhando pela fresta da porta
A vaca, no cio, se entregando ao touro.
– Que faz aí, menina curiosa?
– Nada não. O touro tá matando a vaquinha.
– Já pra dentro, sua safadinha. Mas que safadinha!...
– E mãe não vai acudir a tadinha?

Assim começara janeiro e o ano.

Cobras e lagartos invadindo a casa.
Homens com enxadas e mulheres a tiracolo
Cansados de cavarem o solo
Na esperança do veeiro da mina.

Passaram as primeiras chuvas de janeiro
E outras não vieram.
E com as chuvas de janeiro
Se foram todas as esperanças do ano.

E assim findara janeiro e o ano.

Cáceres, 28 de setembro de 1981.


OS HOMENS DO TORTO

Filho legítimo do boi Marujo (quando este ainda era touro)
O garrote Graúna deu muito o que falar
No sítio Torto e arredores.
Dizem as más línguas:
– Com’é que pode um filho negro do pai branco?!

(Cromossomática que só a genética explica).

Mas não convence.
Pra os homens do Torto o boi Marujo levou muito chifre.
“Só pode ter sido muita ponta”.
– Não tá vendo que uma vaca nova, fogosa como aquela...
Ia se satisfazer com um touro em decadência!?

Genética que só a cromossomática complica,
Mas não convence (é claro que não convence).

Os homens do Torto tiveram muito o que falar.
O que é aprumado que no Torto não sai torto?

Pois assim são os homens do Torto.

Cáceres, 27 de setembro de 1981.


MÃOS

Mãos magras, trêmulas, frágeis; calosas mãos.
Pra ser franco, nem parecem mãos.
Mãos que madrugam as enxadas.
Mãos que calejam os cabos das foices.
Mãos que amassam os martelos
E que cultivam o pão para o diabo amassar.

Peiúdas, pedradas, indecisas, constringidas,
Decifradas, rasgadas, sangradas...
Amassadas, decepadas, reprimidas...
Medrosas – acanhadas mãos.

Mãos que cavam a cova
À procura de uma palavra nova
Que seja amor, paz, guerra...
Contanto que traga justiça.
Contanto que traga justiça – esta palavra nova.

Cáceres, 04 de novembro de 1981.


SANGRIA

(A los Obreros chilenos)

Yo
Hijo de América,
Hijo de ti y de África
Esclavo ayer de mayorales blancos
Dueños de látegos coléricos;
Hoy esclavo de rojos yanquis azucareros y voraces,

Sepultado en el fungo de todas las cárceles;
Cercado día y noche por insaciables bayonetas.
Nicolás Guillén.

Vi sangue nas paredes das prisões,
Nas calçadas, nas favelas e nos matagais.
Vi sangue na argamassa das construções
E nos pneus dos carros oficiais.
Vi sangue nos coletes dos patrões,
Nas minas e nos canaviais.
Vi sangue nas salas e nos porões.

Também vimos sangue nos garimpos e seringais;
Nas engrenagens das máquinas, nas fábricas,
Nas luvas dos donos das multinacionais,
Vimos sangue nas ruas, nas escolas,
Nas botas dos soldados e nas mãos dos generais.
Vimos sangue também nas estolas,
Nos muros e nas fardas dos policiais.

Há sangue derramado em toda América –
Em todas as Américas há sangue.
Há aqui uma sangria tétrica
Desde las poblaciones hasta los mangues.
Há sangue derramado por uma ditadura cética
Apoiada no capitalismo ianque.
Há sangue na terra de Violeta – a feérica.
E este é o sangue do povo: – “Tomai-o e bebei-o”.
Reparai que é vermelho – só vermelho.
Este é o sangue do trabalhador – sugai-o!
Sugai-o enquanto fordes dono do relho.
Este é o sangue do oprimido – saboreai-o!
Saboreai-o enquanto fordes dono do reino
Pois amanhã será o dia do lacaio.

Há sangue por toda parte – sangue do povo.
Sangue de homens, mulheres, inocentes...
Há dez anos houve sangue, há hoje e haverá de novo
Até que se rompam todas as correntes.
Há sangue no cálix e no pão servido ao polvo
Do imperialismo capitalista, em grandes torrentes,
No qual este se nutre em largos sorvos.

19 de setembro de 1983.


ENTRE MORTOS E DESAPARECIDOS
(A las madres “locas” de la Plaza de Mayo).

Posso ser adubo para minha terra, mas dela não saio.
Megaron, líder indígena txucarramãe.

Às crianças indefensas que choravam por pão
Responderam com bombas e granadas.
Aos jovens que imploravam por educação
Responderam com tiros e gás lacrimogêneo.
Aos inocentes que clamavam por justiça
Responderam com cárceres e algemas.
Aos trabalhadores que reivindicavam seus direitos
Responderam com metralhadoras e baionetas.
Aos que atreveram um dia sonhar
Responderam com o pesadelo da tortura e do terror.
Aos camponeses que queriam a terra para trabalhar
Responderam com ameaças e covas rasas.
Aos que queriam melhores condições de moradia
Responderam com o massacre às suas casas.
Aos pacifistas que peiam paz
Responderam com a mais brutal violência.
Aos que lutavam pela melhoria da ciência
Responderam com o aperfeiçoamento da tortura científica.

Aos que queriam a soberania nacional
Eles responderam com a perseguição e o degredo.
Aos que necessitavam de medicamento
Eles responderam com a anestesia do medo.
Aos que procuravam pelos seus parentes
Eles responderam que estavam mortos ou nas grades.
Aos que pediam explicações sobre seus mortos
Eles responderam com o silêncio dos covardes.
Aos que tentaram falar a língua do povo
Eles sufocaram com o matraquear das metralhadoras.
Aos artistas, escritores, jornalistas e poetas do povo
Eles laçaram o vilipêndio das mãos censoras.
Aos que semeavam o amor e a união
Eles responderam com o ódio e a discórdia.
Aos patrícios por eles supliciados
Eles nem deram o alívio do tiro de misericórdia
E aos que ousaram um dia reclamar
Eles os calaram para sempre.

Buenos Aires, 17 de junho de 1983.


PRELÚDIO PARA DEPOIS

Aqui a vida e a morte se confundem
Em êxtases e delírios medonhos:
Míseros seres esqueléticos e risonhos
Sonham que são felizes.
Gargalham e cantam as meretrizes,
E as crianças tristes e abandonadas,
Lânguidas, pálidas e chupadas
Ainda conseguem forças para mais uma pelada.
E assim se sente felizes e satisfeitas
Pois tudo pode ser felicidade
Para quem não conhece a ilha da liberdade
Nem sabe que há a felicidade plena:
Não a felicidade de ter quem dê uma esmola
Mas a felicidade de não haver ninguém a mendigar.
Não a felicidade de ter alguém para nos sorrir
Mas a felicidade de poder sorrir também.
Não a felicidade de servir para servir
Mas a felicidade de servido e servir a alguém.
Aqui tudo se forja num lapso de consciências.
Aqui os mortos e os vivos se confundem
Na lembrança dos mortos vivos e dos vivos mortos
Em agonizantes e desesperadas existências
Como se anunciassem um prelúdio para depois.

25 de maio de 1983.


PRECE PELA AMÉRICA LATINA
(Para Maidana, nos cárceres da burguesia paraguaia).

Enjaularam os inocentes
Como se fossem animais.
Procuraram os olhos
Que viam claro nas trevas
Para os vazar.
Paul Eluard.

Que a América Latina não seja
O eterno continente dos generais:
Mas que seja a terra dos soldados do povo,
Do povo e dos homens iguais.

Que a América Latina não seja
O eterno continente do futebol, do sonho,
Da esperança e do carnaval:
Mas a pátria una do trabalho,
Da certeza, da prosperidade e da grandeza.

Que a América Latina não seja
O eterno continente da repressão, do terror,
Da injustiça e da ditadura militar:
Mas a pátria maior da liberdade,
Da paz, da justiça e do governo popular.

Que a América Latina não seja
O eterno continente da tortura e da miséria:
Mas a terra da compreensão, do amor, da tolerância,
Da união e da abundância.

Que a América Latina não seja
O eterno continente da tirania
Mas o berço eterno do progresso e da democracia.

Que a América Latina seja a pátria de Maidana
E que as grades sirvam para os assassinos,
Ladrões e traidores do povo.
Que a igualdade seja a lei soberana
Que rege o velho e o novo.
Que essa América seja a América nossa
Apesar do pouco que resta – mas que seja soberana –
A soberana Pátria dos homens livres.

Cáceres, 1º de janeiro de 1983.

(Publicado no jornal VOZ DA UNIDADE, órgão de
divulgação do Partido Comunista Brasiliero - PCB,
em sua edição número 137,
período: 20 a 26 de janeiro de 1983).


QUE PAÍS É ESTE?

Quien
nombra este país
esta grandeza que avanza muy cerca de mi…?

Quien me contó
Que están juntos allí
las tristes favelas con el carnaval?
Feliz Luna e Ariel Ramires.

Dizem que em meu país há presos políticos,
Pois eu digo que não;
Dizem que em meu país há famintos e favelados,
Pois eu digo que não;
Dizem que em meu país há milhões de crianças abandonadas,
Pois eu digo que não;
Dizem que em país há desempregados e marginais,
Pois eu digo que não:

Eu digo que em meu país há cadáveres e desaparecidos;
Eu digo que em meu país há miséria por todos os lados;
Eu digo que em meu país há exploração;
Eu digo que em meu país há subserviência e escravidão.

Dizem que em meu país há um governo corrupto,
Pois eu digo que não;
Dizem que em meu país há mendigos pelas calçadas,
Pois eu digo que não;
Dizem que em meu país há repressão,
Pois eu digo que não;
Dizem quem em meu país há injustiça,
Pois eu digo que não:

Eu digo que em meu país há um sistema corrupto e corrompedor.
Eu digo que em meu país há mendigos nas portas das mais
luxuosas mansões.
Eu digo que em meu país há banditismo oficial.
Eu digo que em meu país há massacre, arbitrariedade e terror.

Dizem que em meu país não há liberdade,
Pois eu digo que sim;
Dizem que em meu país não há mais carnaval nem futebol,
Pois eu digo que sim;
Dizem que em meu país não há produto de 1ª qualidade,
Pois eu digo que sim;
Dizem que em meu país não há felicidade,
Pois eu digo que sim:

Eu digo que em meu país somos livres para morrer:
Quando ficamos “inúteis” e “improdutivos”.
Eu digo que em meu país há fantasias e ... GOOOOOOOL!
Para o povo esquecer a fome, a exploração e a dor.
Eu digo que em meu país há mulatas de 1ª linhagem
Que são exportadas em grandes Navios Negreiros.
Eu digo que em meu país é feliz aquele que escapa
Das doenças infantis, dos parasitos ou do 10º assalto.

Cáceres, 11 de fevereiro de 1983.


MÃOS OPOSTAS

A mão que esgana
sufoca
esmaga
E amassa o pão e a massa,
A mão que em gestos ralos
Luta
Labuta
Mendiga e perdoa,
São mãos que não se dão.

A mão que maneja o fuzil
O Brasil
O Povo
Os dados e a computação,
A mão que esforça
Roça
Capina
Opera a máquina e o enfermo,
São mãos que não se dão.

A mão do ladrão
do chefão
do patrão
do barão prepotente,
A mão do justiceiro
do subalterno
do operário
do refratário consciente,
São mãos que não se dão.

A mão que tritura o povo
o velho
o novo
a mulher, o negro...
A mão que ampara o frágil
o ancião
a criança
o desvalido feito um cão,
São mãos que não se dão.

A mão do torturador
do delator
do traidor
do ditador e mercenário,
A mão do educador
do trabalhador
do revolucionário
do governo igualitário,
São mãos que não se dão.

Cáceres (MT), 31 de dezembro de 1982.


UM CANTO DE DOR

A dor do não-ter, do não-ser, do não-poder, do não-comer,
Do só-esperar, do só-sofrer, do só-sonhar, do só-trabalhar;
A dor do não-cantar, do não-sorrir, do não-viver, do não-vencer;
Do só-mendigar, do só-vegetar, do só-perder, do só-lamentar;
A dor do não-se-rebelar, do só-se-conformar e do só-produzir...

A dor de ver o filho morto de fome e em sua miséria tamanha
Ter que sair de porta em porta à cata da caridade dos outros
Pedindo uma ajuda para enterrar o filho morto de fome,
E ouvir daquele que, no orgulho do poder fazer caridade,
Infamemente – sem respeitar a dor do pai da criança morta –
Já lhe cobra pelo seu “belo ato caritativo”:
– Olha! não vai beber, não. Enterra mesmo o teu filho.

Já nem mesmo sei se pode haver um canto
(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é dor.
Já nem mesmo sei se pode haver um canto
(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é miséria.
Já nem mesmo sei se pode haver um canto
(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é fome.
Já nem mesmo sei se pode haver um canto
(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é doença.
Já nem mesmo sei se pode haver um canto
(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é escravidão.
E quando tudo é dor e miséria,
E quando tudo é fome e doença
É porque tudo é escravidão!

O meu pretenso Canto de Dor não se fez canto
E se muito se fez se fez uma elegíada –
Mais triste, mais fúnebre, mais dorida, mais funesta
E mais elegíaca ainda nesta hora de tristeza e dor.
De dor profunda de quem não fracassa, mas também não triunfa.
Dor de ver mortas todas as esperanças –
Quando se alimenta apenas de esperanças!

A dor da terra rachada, seca e quente;
A dor da última pá de cal sobre o ente mais querido;
A dor de todos os momentos de angústia e tristeza.
A dor sem fim do só-sofrer e sofrer
Até que a morte o consuma para sempre.
E assim não há canto – mesmo que seja de dor – quando
tudo é dor –
Até que a morte nos consuma para sempre.

04 de outubro de 1982.


REAÇÃO

A burguesia fez da dignidade pessoal um simples valor de troca...
Do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio, fez seus servidores assalariados.
Karl Max e F. Engels.

À mão opuseram a contramão
À razão opuseram o contra-senso
À indicação opuseram a contra-indicação
À revolução opuseram a contra-revolução
À abertura opuseram a contra-abertura
À oposição opuseram o terror e a repressão
À alegria opuseram todas as tristezas
Ao fato opuseram a mentira
Ao golpe opuseram o contragolpe
Ao ataque opuseram o contra-ataque
Ao gosto opuseram o contragosto
Ao operário opuseram as máquinas
Ao diálogo opuseram o monólogo
Ao homem opuseram os tanques de guerra
E do camponês fizeram “o homem sem terra”.

Santa Inês (MA), 12 de agosto de 1983.


VULTOS DA SECA

Não basta ainda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
Castro Alves.

Lembro-me como se tudo fosse agora!
Era um homem alto, magro – quase transparente –
O que dava a firme impressão de um fantasma
Soprado pelos ventos – maus ventos com certeza –
Trazia pela mão uma filha – pobre Ritinha! –
Parecia mais um desenho animado
Desenhado com caneta escrita fina;
Magérrima (por pouca tinta), anêmica,
Os ossos quase furando a pele,
Pobre, triste e de infância assassina.

Lembro-me como se tudo fosse agora!
Ano de 1958, lá pelo meado de novembro,
Quando se chegou ao alpendre da casa aquele vulto,
E com voz sumida e procurando em que se escorar,
Interrogou suplicante, humilde e vacilante:
– Posso ter uma palavrinha com o Coronel?
É que eu vim... não sei nem mesmo como dizer.
Mas Ritinha ajudou o pai a sair do embaraço
Explicando com voz sussurrada, sumida:
– Pai veio me trocar por um pouco de comida.

Essa proposta até então absurda, estranha,
Ficou em mim como um câncer que me corrói as entranhas.
E como uma chaga ativada a ferro quente
Eu ouço sempre – aonde quer que eu vá – aquela voz:
– “Pai veio me trocar por um pouco de comida”.
E hoje é assim – infamemente assim:
Em cada rosto magro, em cada criança na rua,
Em cada trabalhador, em cada criança sofrida,
Em cada mão que mendiga eu só vejo Ritinha,
Este vulto que me acompanha por toda a vida.

Ah! é como se tudo acontecesse agora!
As mesmas lágrimas ainda rolam incontidas
E a mesma revolta que me marcou no mais fundo de mim
Para todo o resto de minha amarga vida
Ainda me atordoa como pesadelos medonhos;
Como insonhados e lúgubres sonhos;
Como hitleristas perseguindo judeus...
É como se ainda agora eu visse aquela criança em minha frente
A repetir sempre, e sempre, e sempre – eternamente:
– “Pai veio me trocar por um pouco de comida”.

Lembro-me como se tudo fosse agora!
Aquele vulto magro ajoelhado, implorando:
– Coronel! são só vinte rapaduras pretas,
Dez quilos de feijão e trinta litros de farinha;
É tudo, Coronel! e nada mais eu peço.
Juro que é tudo que eu peço em troca
Desta minha pobre e desventurada Ritinha.
E faço isto, Coronel, por duas razões
E não porque eu tenha uma consciência mesquinha...
– E quais as tuas razões, João do Braço Cotó?

– Ah! São simples as razões, Coronel; simples razões.
São as razões da barriga vazia: a fome!
As quais desconhecem os enternecidos corações.
Feita a troca, Ritinha não mais passará fome
E com certeza terá saúde e educação
Nós, os demais, teremos comida para seguirmos
À busca de outras terras, outras paragens...
Ah! Coronel. Talvez penses que tenho instintos selvagens
Mas faço isto só pelo bem dela, eu juro!
E pelo bem dos que em casa ficaram.

Ah! é como se tudo acontecesse agora!
A mesma angústia ainda me dilacera as entranhas
E a mesma revolta ainda me esgana e me devora.
Ouço a mesma voz a repetir sempre, incessantemente,
Constantemente, como uma eterna maldição
Vaticinada pela bruxa-fada do destino
Esta frase chocante e enlouquecedora:
– “Pai veio me trocar por um pouco de comida”.
E ouço fazer eco no vazio da vida:
– PAI VEIO ME TROCAR POR UM POUCO DE COMIDA.

Lembro-me como se tudo fosse agora
E ainda mais quando tudo se repete como então:
Os mesmos vultos quase transparentes e cambaleantes
Trazendo os magérrimos filhos pela mão.
Sobejados da fome e rejeitados pela morte
Escrevem com o próprio sangue mais uma história
De retirantes numa eterna e triste repetição de fatos macabros
Que através dos séculos vêm arrastando gerações
E consumindo vidas, numa eterna repetição:
– “PAI VEIO ME TROCAR POR UM POUCO DE COMIDA”.

11 de setembro de 1983.


O ABC DO CAPITAL E DA REAÇÃO

Assassinar é a palavra-chave
Banir às vezes é uma opção
Caluniar é sempre um bom negócio
Dedurar é tudo o que têm em mãos
Explorar é a base do capital
Falcatruar é uma obrigação
Ganância é marca registrada
Hematofagia é meio de alimentação
Injuriar é mais um prazer
Jacobeus são todos por tradição
Lucrar é tudo que têm em mente
Mais-valia é porque valia mais, mas – “Mais não vale não”.
Narcisismo é padrão moral
Oprimir é meio de auto-afirmação
Perseguir é evitar concorrência
Quantidade é uma tentação
Reprimir é manter-se no poder
Sugar alimenta a reação
Torturar evita os inimigos
Usurpar é retaliação
Verdugos são por natureza
Xeretar é manterem-se em comunhão
Zângãos é o que todos são.

(No 10º aniversário da morte (?) do poeta dos oprimidos e do
amor-maior: Pablo Neruda).

23 de setembro de 1983.


MUGEM AS VACAS E OS CORONÉIS

Mugem as vacas sem água e sem pasto.
Mugem as vacas o seu mugido mais nefasto.

Mugem as vacas sedentas e famintas.
Mugem as vacas pelas crias extintas.

Mugem as vacas no curral do senhor.
Mugem as vacas no frenesim do cio e da dor.

Mugem as vacas tristes na apartação
E mais tristes mugem na hora da dilatação.

Mugem as vacas no mais triste abando
Já que pouco produzem para seu dono.

Mugem as vacas como se fosse o último mugido,
Mas mugem num gesto extremo e atrevido.

Mugem as vacas e os coronéis
No terreiro da fazenda e nas portas dos bordéis.

Mugem as vacas prenhes e as paridas,
As vacas corruptas e as corrompidas.

Mugem as vacas, que somos nós:
Velhas, desamparadas, enganadas e sós.

Mugem as vacas saudosas e enternecidas.
Mugem as vacas sérias e as prostituídas.

Mugem as vacas em noite de miséria ou gala
Mas só mugem mesmo quando o touro cala.

06 de janeiro de 1983.


MAL CRÔNICO

A esta hora exactamente,
hay un niño en la calle…
Hay un niño en la calle!

Pobre del que ha olvidado que hay un niño en la calle,
Que hay millones de niños que viven en la calle.
Y multitud de niños que crecen en la calle…
A. Terrada Gómez.

Nada me dói n’alma tão profundamente
O quanto me dói ver uma criança chorando;
Raquítica, anêmica, órfã, sofrendo,
Minguando, morrendo; se consumindo, se acabando...
Nada me dói n’alma tão dilaceradamente!...

Nada me rasga o peito tão carniceiramente
O quanto ver uma mão magra esmolando,
Uma criança atirada na calçada
Sem pai, sem patrícios, sem família: sem nada!
Nada me rasga o peito tão mortalmente.

Nada me estraçalha as entranhas tão brutalmente
Como ver essa cara magra – magérrima! – .
Como um pé descalço e uma camisa aberta ao peito.
Nada!... nada me faz mais contrafeito
Do que ver um peito sem leite
E uma criança sem leite e sem leito.

Nada me leva às lágrimas tão desesperadamente
Como as lágrimas de uma criança que chora...
Que chora aos soluços!
Nada no mudo me faz tão bruto: tão animalesco!
Dor que ver uma criança em seu mendigar
Porta-a-porta da cidade dos homens da cidade...
Mendigando o pão e a liberdade...
Nada me faz tão prisioneiro!

Cáceres, 16 de agosto de 1980.


PALMARES EM OUTROS DIAS

Palmares. Manhã cinzenta. O sol nasceu meio acanhado.
Manhã negra: os urubus sobrevoam os Palmares!
Dizem que vieram lá das bandas do Engenho de Dentro.
(Pobres urubus! aqui também tá como no Engenho:
Os homens devoram tudo! Não sobra nada pra nós –
Nem mesmo para os urubus).

Palmares. Sol a pino; 40 graus; sede de cavalo.
Os urubus desistiram. Os homens desistiram.
Mas a fome persiste: afinal é fome pra urubus!
As ruas estão desertas; o céu também.
Chego a pensar que a morte morreu de fome.
Chego a pensar que a fome morreu de fome,
Pois em Palmares tudo é silêncio.

Palmares. Aquele sol quente se escondeu de vergonha.
Tardezinha, já começo de noite –
Parece até que já era noite em Palmares
Desde que amanheceu o dia.

Nem parece que já houve dias em Palmares.
Nem parece que já houve Palmares em outros dias.
Não há quilombo, nem senzala, nem casa-grande:
O que há em Palmares é uma história
Que se decompôs com o passar do tempo
E Palmares nem viu o tempo passar.

Palmares, 05 de maio de 1981.


A LOS MINEROS DE LA SIERRA

Bolívia! Bolívar se envergonha de ti
Pois a Garcia não foi mesa posta
Para os teus mineiros famintos.
E Santo Inácio, Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba –
Seus bravos agora extintos –
Um dia viram ser metralhado bem aqui
O maior guerrilheiro do mundo
Pelo pior exército do mundo.

Bolívar! levanta-te das cinzas do passado
Pois os mineiros famintos e estraçalhados
São míseros escravos ianques,
Reprimidos, oprimidos e pisados pelos tanques
De um exército traficante de cocaína e sangue.

Mineiros! à luta!
Estraçalhem essa farda bruta
Que vos vende aos imperialistas.
Pois Bolívar já não mais virá
Mas os “garcias” precisam ser liquidados.
E viva o povo e morra o passado!
Mineiros! à luta!

Bolívia, 06 de janeiro de 1981.


NOS CONFINS DOS BRASIS

Açúcar e presentes, essas coisas acaba.
Terra não acaba. Então índio tem que brigar
senão caraíba toma todas nossa terra.
Cacique Raoni; Xingu, 1971.

Brasis dos confins
E entranhas das matas desvirginadas
Onde cearenses são escravos servis,
Que a exemplo dos outros brasis
São dóceis escravos de japoneses, americanos,
Alemães, suíços e até de brazilianos.

Nos confins dos brasis
Onde o cidadão brasileiro
Nunca passa de escravo ou de forasteiro
Há um mundo de Babel:
Há gregos e troianos;
Japoneses e americanos;
Alemães e italianos;
Ratos e tubarões.

Brasis das matas desvirginadas,
As multinacionais comem-te às dentadas
E fazem de teus filhos míseros escravos.
Brasis dos índios bravos
A quem já funaram também.

Mirassol d’Oeste, MT., 03 de janeiro de 1981.


METALÉTICA E DIAFÍSICA

Passou o dia – não viu o dia.
Veio a noite – não houve luar.
Passou o tempo – não viveu.
Não viu o dia; não houve luar; não viveu.

Não passou a fome – comeram-se uns aos outros.
Não passou o dia – “É hoje ou nunca mais”.
Não viu o luar – o sol não nasce para todos.
Engoliu mosquitos e se engasgou com os bois.

Insistiu em viver – não conseguiu –
Pois a água mole não fura pedra dura.
Vieram novos ventos – também não moveram moinhos –
Pois quem alcança certamente não esperou.

Quem com ferro fere continua ferindo
Pois em terra de cego quem tem um olho é zarolho.
“Dize-me com quem andas e te direi quem és”.
Cristo andava com Judas e Judas era seu discípulo!...

O pau que nasce torto, não tem jeito, eu aprumo,
Porque “nem tudo que reluz é ouro”.
Em casa de ferreiro se engana aos tolos
Com banana e bolo e espeto de ferro.

Chegou a hora – quem sabe espera acontecer.
É melhor menos – mas melhor é ter.
Passou o dia e não houve sol – não era dia.
E Zé pra não ser Maria preferiu morrer.

Cáceres, 20 de dezembro de 1980.


NO BAGAÇO DO ENGENHO

São casas caídas – bagaço do engenho da vida! –
E tinham as mãos moídas
E os dentes rangentes.
Eram soldados dementes
Devorando crianças famintas e tementes.
E o bagaço virou gente
Já que um dia a casa cai.

Eram os esqueletos redimidos
Fazendo guerra aos seus bandidos
Num medonho faiscar de facas.
E já que um dia a casa cai
Aquele povo triturando
Se levantou das cinzas do passado
E fez dos soldados,
Que eram seus opressores,
Homens produtivos e úteis à pátria.

Cáceres, 29 de novembro de 1980.


CONTAGEM REGRESSIVA

“Angra I, Angra II, Angra III,
Angra IV, Angra V, Angra VI”...
E assim começa a história
Dizendo que era uma vez
Angra do povo – Angra dos Reis.

Angra I irá terminar em Angra II?
Ou em Angra V, VI, X ou Angra Mil?
Ou será Angra a sopa no prato
Dessa corja que em um só ato
Negociou a soberania do Brasil?

Fizeram de Angra o átomo da morte
Para o orgulho belicista de uma casta.
Orgulho esse alimentado na fome do povo;
Do povo que foi tragado de um sorvo
Numa negociata nefasta.

“Angra VI, Angra V, Angra IV,
Angra III, Angra II, Angra I!”
E assim terminará a história
(Que fez de Angra “uma glória”?)
Em um catastrófico ZUUUUUUUUUUNNN!

13 de junho de 1983.


SOMBRAS NOCTÍVAGAS

Es el tiempo del cobre,
mestizo, grito y fusil,
si no se abren las puertas,
el pueblo las ha de abrir.
Daniel Vigletti.

Não é que agora me doa no peito essa dor
Que chamam saudade – absolutamente não! –
Mas me retalha as entranhas esta certeza crua
De que dos meninos que brincavam no pátio da casa-grande
Somente eu cresci – somente eu!
Uns, bem pequenos ainda, morreram de fome.
Outros, a verminose corroeu lentamente.
Alguns – sobejados da morte e dos vermes –
Caídos nas mãos de outros parasitos,
Teimosamente relutaram em viver.

Não é que me venha agora a saudade da casa-grande
Com toda a sua fartura, luxo, aparato, parafernália...
Não é que me faça falta aquela vida aparentemente boa –
Longe (bem longe!) de mim tais males.
É que, para aonde quer que eu vá,
Os fantasmas dos meninos magros acompanham-me os passos.
Esvoaçantes aos quatro ventos – ventos rasteiros até!
Transparentes e vulneráveis como cristais!
Pálidos; anêmicos como a gazula do algodão em floração.
Errantes como beduínos nômades os meninos magros me
perseguem.

Como sombras noctívagas os meninos magros
Acompanham-me os passos pelas ruas desertas
Da nauseabunda cidade noturna dos homens de negócios.
Praguejantes e irreverentes me perseguem passo a passo.
Como se fosse eu o assassino de mil vidas
Ouço no silêncio da noite o retumbar de vozes clamantes:
– Vingança! ao que, nadando em ouro, roubou nosso único pão!
Envergonhado lembro-me que na casa-grande era farta a mesa.
Fartura exagerada de um coronelismo falido e decadente
Enquanto os meninos magros morriam de fome lá fora.

Uns, empunham foices; outros, empunham martelos.
E todos bramem seus instrumentos no ar – VINGANÇA!
Faíscas ofiomórficas cruzam os céus
Descrevendo o anátema dos desvalidos:
– MORTE AO ASSASSINO DOS MENINOS MAGROS!!!
E assim avançam e recuam sobre mim continuamente
Em movimentos ritmados, lânguidos e funestos
Como se precedesse ao meu funeral.
Pejo! e tremo, e tremo, e tremo ainda mais e mais!
E os meninos magros se tornam gigantes ante mim.

E crescem mais e ainda mais e mais!
Os ex-meninos-magros são agora gigantes
Que me circundam em meus passos cadenciados
Como se fosse eu o menino magro morto de fome.
É que agora – molemente – eles caem sobre mim
E entoam a CANÇÃO DOS ESCRAVOS REBELDES.
Tento cantar com eles mas a voz dos rebeldes em coro
Altissonante sufoca a minha vacilante voz de covarde.
Porém, um esforço vão e mais outro e outro mais
Me permitem cantar em coro com os ex-menios-magros.

Canto! Canto agora a CANÇÃO DOS ESCRAVOS REBELDES
Em coro uníssono com os ex-meninos-magros
Que, com isto, se mostram agora satisfeitos.
Martelos e foices em punho lá vamos nós
(Sou eu agora – que nunca fui magro – mais um dos
Ex-meninos-magros, agora satisfeitos) numa marcha fúnebre
Ao brado: “MORTE AOS NOSSOS ALGOZES!”
Os ex-meninos-magros, agora satisfeitos,
Marcham triunfalmente sobre os algozes do POVO
Na conquista dos nossos próprios direitos.

Cáceres, 12 de junho de 1982.


AO POETA DO POVO

Le poète est ciseleur,
Le ciseleur est poète.
Victor Hugo.

Nego Egberto
Byron e Göethe nem passaram por perto
De tua cacimba de poesia (inesgotável).
Versos dás de esmola
A esses mendigos de escola –
Esses asnos acadêmicos.

Nego Egberto – poeta do povo;
Poeta da calçada, do beco, da bodeguinha...
(Esta, cheirando a cachaça; ele, cheirando a povo –
Cheiro de tudo, menos de poeta).
Nego Egberto – poeta de noite; de dia, lavrador.
De dia lavra a fome; de noite versejo o amor.
Terror de Manoel Bandeira quando a este interrogou:
– Mané Bandera!
Mas quem te falou que hora tem cinza?
No Nordeste te ensinaram que poeta popular
Mesmo não sendo fanhoso chama camisa caminza.

Cáceres, 08 de junho de 1982.


HÁ UM POVO

Há um povo dominado pela força e pela miséria
E que, já afeito às chicotadas, apenas cala.
Há um povo, eu sei, que esgotado, sugado, explorado
E treinado para produzir e dar lucro ao patrão
Apenas trabalha, trabalha e trabalha,
E consente-se na exploração.

Há um povo, e eu sei que esse povo foi apelidado de “MASSA”:
– “Simples massa de manobra”! – e cuja massa
Serve para fazer pão, biscoito, bolacha...
E que qualquer padeiro, sem mão-de-obra especializada,
AMASSA!

Há um povo que passa fome, é escravizado
E nem sabe que é infeliz.
Há um povo, eu sei, que crente no destino,
Espera por um deus inútil e falido,
Tal como a sociedade que o criou.

Eu sei que há uma raça esmagada
Por uma sociedade supra-sumo;
Uma sociedade coisa-e-fina-e-coisa-e-tal;
Uma sociedade de desperdício e consumo;
Por uma sociedade ociosa e decadente.

Eu sei que outros povos já se libertaram
E que outros lutam pela sua libertação.
Eu sei que o nosso povo trabalha e sofre:
Uns, conformados; outros, revoltados.
É certo que as adversidades existem
Mas mesmo assim o nosso povo ensaia a REVOLUÇÃO.

Cáceres, 22 de março de 1983.


A VELHA HISTÓRIA DE UM POVO
(Para uma menina morta de fome)

A menina Verinha era aquilo que um desavisado
Chamaria de “sobejo da morte”.
Nem era esqueleto, nem era sombra, nem era!!!...
Olhou-me como quem não olhava e quis sorrir.
Porém não sorriu – seu sorriso parou numa careta de fome,
Pois a fome era bem mais forte.
Dizem que Verinha não é filha da sorte.

Quanta vergonha sentiria a filha do patrão
(Se um dia houvesse vergonha)
Ao ver que há milhões de verinhas
Porque seu pai é o patrão todo-poderoso.
Mas não. Tamanha reflexão fica para depois;
Verinha é apenas um trapo de gente
E quem deixará o brinquedo importado, made in sei lá,
Para pensar na fome made in Brazil?

Aos três anos Verinha nem aprendera a falar.
Também não teria importância, pois sua voz não teria vez;
Teria, como os demais, que balançar sempre a cabeça,
Afirmativamente, aos ditames e caprichos do patrão.

Eu quis brincar com Verinha, fazê-la rir,
Mas com a miséria não se brinca.
Pára lá! Exijo mais respeito. O caso é sério!
Verinha olhou-me de soslaio
E seu olhar foi como um raio
Dilacerando-me o coração.

Adeus, Verinha! Verinha! Eh! Verinha, adeus!
Verinha, Verinha! Adeus! Adeus!
Mas que cego sou eu!... Que cego!
Infame! Cabeça de prego!
Nem vi que Verinha não mais via
Ou melhor – Verinha nem nasceu!
Estava ali um aborto da fome
Sem direito, sem pão, sem vida, sem nome.

Cáceres, 06 de dezembro de 1981.


MOTE Nº 1
(Para Delmiro Violeiro)

Dentro do que me convém
Ultrapassar os limites
Sem aceitar os palpites
De fulano ou seu-ninguém;
Sem rapa-pé ou porém,
Sem me gabar das virtudes,
Atingindo longitudes
Que alguém jamais conseguiu,
“Atravesso mar e rio
Pra atingir as altitudes”.

Não somo e nem subtraio,
Não divido ou multiplico;
Amo o pobre e odeio o rico
E firo a este como um raio.
Dívida eu nunca contraio
Pois tenho solicitudes.
Jamais serei dos mais rudes
Pra ser na vida um vadio.
“Atravesso mar e rio
Pra atingir as altitudes”.

Fui buscar minhas raízes
E as achei no xiquexique,
No jeitinho do trambique
E nas raças infelizes;
Nas casas das meretrizes,
No ponteio das violas rudes,
Nas paredes dos açudes
E na terra quando no cio.
“Atravesso mar e rio
Pra atingir as altitudes”.

Não admito blá-blá-blá
Nem mais-mais ou rém-rém-rém.
Não divido meu xerém
Com qualquer um aruá.
Não quero nunca abusar
De tamanhas magnitudes
Pois de falsas atitudes
Francamente desconfio.
“Atravesso mar e rio
Pra atingir as altitudes”.

Cáceres, 11 de dezembro de 1981.


MOTE Nº 2

Com a foice e o martelo,
Com a enxada na mão,
Sem medo de assombração
Trabalhando sempre revelo
O mais puro e digno anelo
Pelo que o povão quer.
Vendo a vida como é
Eu quero dizer bonito:
“Do trabalho necessito
Na justiça faço fé”.

Faço fé no camponês,
No nosso proletariado,
No homem assalariado
Que luta contra o burguês.
Naquele que nunca fez
O jogo do “coroné”
Nem atendeu ao pajé
Quando este lhe tratou a grito.
“Do trabalho necessito
Na justiça faço fé”.

É no homem que trabalha
E luta contra a opressão,
O burguês e a exploração
E arde como fornalha
Quando trava a sua batalha
Que espero um novo CHE
Pra salvar esta ralé
Que sofre um mal infinito.
“Do trabalho necessito
Na justiça faço fé”.

Faço fé em toda luta
Contra o falido sistema
Que ao povo sempre algema
Sendo do patrão a batuta.
Na atitude resoluta
Que não é só rapa-pé
Porém um grande abaré
Proclamando a grande grito:
“Do trabalho necessito
Na justiça faço fé”.

Cáceres, 01 de novembro de 1981.


MOTE Nº 3

A terra onde sempre se destrói
E quase mesmo nada prospera
Pois dentro desta maldita esfera
Governo e patrão tudo corroem.
Esta é a realidade que dói
Como vis punhaladas no peito
De que sempre procura algum jeito
Mas as coisas nunca que melhoram.
“Governo e patrão sugam e esfolam
E o povo a nada tem direito”.

O patrão rouba e explora de um lado;
Do outro o governo despreza e engana
De forma descarada e tirana
Este povo que já virou gado.
E assim, faminto, nu e explorado,
Não se pode viver satisfeito;
E nem se pode ser bom sujeito
Quando todos nos roubam e amolam.
“Governo e patrão sugam e esfolam
E o povo a nada tem direito”.

Prospera o burguês explorador,
O patrão que nos rouba a camisa,
Aquele que rouba o que não precisa;
Prospera o governo enganador,
Só não prospera o trabalhador
Devido à mania de ser perfeito,
Honesto e tudo fazer bem feito
Enquanto os tubarões nos devoram.
“Governo e patrão sugam e esfolam
E o povo a nada tem direito”.

Suga o governo, suga o patrão...
Todos sugam o trabalhador.
O estrangeiro também é sugador
E todos sugam sem compaixão.
Sugam nossa querida Nação:
Sugam branco, índio e preto,
Pois pra sugar não têm preconceito
E assim eles a todos enrolam:
“Governo e patrão sugam e esfolam
E o povo a nada tem direito”.

Cáceres, 31 de dezembro de 1982.


A BEM DIZER NÃO HÁ HISTÓRIA

A minha história é bem curta:
Não tenho muito pra contar.
A bem dizer, tenho muito pouco pra contar.
Sou filho da fome, irmão da seca
E retirante das bandas do Ceará.

É história de poucos versos
E de muito versejar.
Alguns pés-quebrados e muitas emboscadas,
Pouco tino e muitas estradas
Que a lugar nenhum vão dar.
É história de pouca terra e muito trabalhar.

História igual a outras tantas
Que vêm do Ceará, Pernambuco, Paraíba...
História de poucos alqueires e muita fome;
De muitas cuias e pouca farinha;
História pra ser contada em entrelinhas
Enquanto se faz a emboscada
Ou se enterra o último cadáver...

A bem dizer, não tenho história,
Não tenho nome, não tenho lar,
Não tenho terra (a não ser nas unhas),
Não tenho pão nem glória.

A bem dizer não tenho lá grandes ambições.
Talvez um punhado de farinha seca,
Um bom taco de rapadura preta
E para completar as minhas satisfações
Alguns alqueires de terra boa pra lavrar
E não mais, pois assim sendo
A vida estará completa:
Lavrador e poeta!

Cáceres, 25 de dezembro de 1981.


OS RETIRANTES

– Os senhores que aí estão
Metidos a retirantes
São homens fugidos da seca
Ou esqueletos andantes?

– Os senhores de São Paulo – esta fábrica de fumaça –
Me perdoem o atrevimento da graça
(Já que é o que me apraz):
Isto aqui é o ponto de encontro da neurose e da desgraça
Ou é o famoso Brás?
Ainda pergunto aos senhores que daqui são:
Isto é o céu em decadência ou o inferno em ascensão?

– Que famintos mais engraçados!
– Que engraçados mais famintos!
– Que famintos mais desgraçados!

(Fragmento)

Cáceres, 03 de janeiro de 1982.


A GUERRILHEIRA
(Para Nora Astorga).

¿Qué canción mejor que
el pueblo en la Revolución?
Rubén Darío.

Usava uma transparente anágua
Que um dia vestira na Nicarágua
Quando lutara junto aos Sandinistas.
E na transparência da anágua fina
A beleza escultural da divina
Parecia obra dos mais puros artistas.

Não é mulher – é uma quase-santa!
Gesticula, se senta, se levanta,
Anda, ri e a nós todos contagia.
Pasmo e penso: e a nossa Revolução?
Meu povo vai cantar esta canção?
E me invade uma vil melancolia.

No seu rosto não há marca de dor,
Nem derrota, nem fome e nem rancor.
Ela é a encarnação dos que triunfam.
É o escravo que partiu as correntes.
É o povo que, com unhas e dentes,
Venceu e agora labuta com afã.

É a gloriosa filha do Caribe
Com o patrício do índio Piragibe
Na luta contra nossos opressores
Por uma sociedade igualitária
Sem a vil questão latifundiária
E um mundo sem escravos nem senhores.

E na transparência da anágua fina
Vi o futuro naquela heroína
Que usava a transparente anágua.
Foi quando todos nós – de uma só vez –
Gritamos com brio, força e altivez:
– VIVA O GRANDE POVO DA NICARÁGUA!

(No dia em que morreu Raúl Roa, no país da liberdade
– 10 de julho de 1982).


PAGARÁS O DÍZIMO?

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes,
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito
Que embalde desde então, corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
Castro Alves.

Nas ruas, nas sarjetas, nas mesas dos bares,
Nas esquinas, nas construções e nos becos;
Nas filas, nas fábricas, nos lares,
Nos copos vazios e nos lábios secos;
Nos depósitos de lixo e nas portas dos cabarés;
Nas palmas das mãos e nas solas dos pés
Eu procurei por deus e não encontrei.

Nos corpos exangues e mutilados,
Nas crianças tristes e famintas,
Nos indigentes por todos os lados,
Nas fervorosas preces e ávidas fintas,
Nas favelas, nos orfanatos, nas valas,
Em tudo: nos quartos e nas salas
Eu procurei por deus e não encontrei.

Nos cárceres infectos e imundos,
No sofrimento dos desvalidos,
Nos trabalhadores, nos vagabundos,
Em todos os vãos sentidos;
Nas noites de tristeza e solidão,
Nos antros do vício e da perdição
Eu procurei por deus e não encontrei.

Nos corpos das mulheres, suados e sebentos,
No amor feito no mais total escuro,
Nos casebres tenebrosos e fedorentos,
No aborto jogado atrás do muro,
Nos meninos magros e pálidos da rua,
Na mulher sobre a cama (bela e nua)
Eu procurei por deus e não encontrei.

Nas crianças que catam lixo para comer,
Nas deletérias razões de um suicida,
Nas mulheres que alugam o corpo para sobreviver,
No jeitinho que se dá pra levar a vida;
No chão, no mar, no horizonte, nos ares,
Em tudo! em todos os pobres lugares
Eu procurei por deus e não encontrei.

...................................

Mas dizem que ele foi visto nas festas palacianas
Entre os de barriga farta e os sorridentes;
Entre os grandes acionistas e as senhoras bacanas;
Entre os que exibem as jóias caras e os bem tratados dentes;
Entre os doutores (mas necas de discutir as leis
Que são sempre a favor dos senhores e dos reis),
Enquanto o povo o idolatra assim mesmo.

Dizem que deus é convidado exclusivo
Dos palácios e das belas mansões;
Dizem também que ele é cativo
Das mesas dos generais e dos barões.
Dizem mais: que é loiro, de olhos azuis,
Despreza os pobres, os famintos e os nus
E é capataz preconceituoso e protetor dos ricos.

E dizem ainda mais: que ele castiga,
Mata crianças, velhos, inocentes...
Admite o bem e o mal, a paz e a intriga
E quer que sejamos seus dóceis serventes.
Não admite operário contra patrão,
Condena o roubo mas recebe o dízimo do ladrão!
Esse é o deus que criaram para o povo.

29 de junho de 1983.


DEUSOTE

Um deus onisciente
onirrisonho
onifeliz
oniverdadeiro
onipotente não é o meu deus

Um deus todo-pomposo
todo-milagroso
todo-bondoso
todo-amoroso
todo-luz não é o meu deus

Um deus assim
assado
amarelo
azulado
avantajado não é o meu deus

Um deus reinante
robusto
reverendo
reprobatório
requintado não é o meu deus

Um deus iluminativo
infalível
incognoscível
imperativo
ilusório não é o meu deus

Um deus originador
ordeiro
opiniático
opulento
ostensivo não é o meu deus

Cáceres (MT), 13 de julho de 1982.


ASSIM É O MEU DEUS

Há um deus em cujo nome são abençoadas
Terríveis armas de extermínio em massa;
Em cujo nome são abençoados exércitos sanguinários e assassinos;
Em cujo nome são explorados os ignorantes e os de boa fé.
Há um deus em cujo nome casam e batizam
E esse jamais poderia ser o meu deus.

Há um deus de olhos azuis e convencional
Criado para servir ao preconceito, ao racismo e à exploração.
Há um deus todo-poderoso para os ricos
E indiferente à miséria dos oprimidos e dos explorados.
Há um deus em cujo nome uns roubam e enricam
Justificando-se que “o rico é rico porque deus quer”.

Porém o meu deus não castiga – perdoa;
Não mata nem extermina – cria e eterniza;
Não quer nem ricos nem pobres
Mas que todos sejamos felizes.
O meu deus não está lá em cima em um trono majestoso
Mas aqui – lado a lado na luta do dia-a-dia – .
O meu deus não nos criou à sua imagem e semelhança
Pois ele se faz igualzinho a nós na dor e na alegria.
O meu deus não cheira incenso nem se prostra nos altares
Mas cheira à graxa e terra e suor e vai à luta.
O meu deus não tem forma nem cor
E se chama igualdade, justiça e amor.

12 de junho de 1983.


ANTAGONISMO

Seguimos caminhos opostos,
Antagônicos e adversos:
Eu, o do poema sem versos;
Tu, o da luxúria e dos impostos.

É certo que eu peguei o caminho da esquerda
Enquanto pegaste o da direita;
E foi exatamente desta feita
Que um de nós registrou a maior perda.

Tomaste o caminho fácil: o atalho, talvez!
Tomaste o caminho paralelo às luzes
Enquanto segui entre sombras e cruzes:
Sem pão, sem teto, sem voz e sem vez.

Eu sou o rebelde – o que não cala nem consente.
Tu és o perdulário das noites da gala;
Eu sou a mão que luta e voz que não cala
Enquanto tu és o eterno e todo-contente.

Cáceres, 07 de maio de 1983.


FESTA LATINA

Roma está em festa – pois eis que agora retornam
Vitoriosas e imbatíveis as suas legiões.
É povo a rua gritando: “Viva o imperador”.
E na arena um só grito da torcida: “GOOOOOL!
Salve! Salve! os nossos tri-campeões!”

Roma está em festa – carnaval em plena avenida!
E no morro saltitam as favelas
Ao som eletrizante da escola de samba querida
Pois Roma está assistindo novelas:
– Plin, Plin! Plin, Plin!... Plin, Plin!...
Ah! Pois em Roma é mesmo assim.

Roma está em festa! Ah! Roma está em festa!
E por ordem do imperador devemos todos rir:
Rá-rá-rá-rái! “Ei! você aí: me dá um dinheiro aí!
Não vai dá? Não vai dar não?”...
Ah! mas vejam só que confusão:
Eu pensei que você fosse do FMI!

O imperador teve a humildade de se lembrar do povo
E mandou soltar na arena seus leões.
E na arena os gladiadores se digladiam
Para delírio do povo, do rei e das legiões
Que agora são heróis nacionais.
Que agora são tema para muitos carnavais.

Pois Roma está em festa, já que o imperador
Mandou incendiar a cidade inteira para seu deleite.
Roma está em festa, já que o imperador divino
Nomeou seu cavalo para representar o povo o senado,
Inaugurando o senado biônico latino.

Roma está em festa, já que o imperador
Se lembrou do povo: “Antes o cheiro do suor de Incitatus
Do que o cheiro do povo”. E para manter do império
Toda a sua pompa e seu status
Nero mandou servir aos leões um banquete de gente
E os leões de chácara se deleitaram no banquete.

Roma está em festa! Em festa latina.
Os direitos do cidadão foram esmagados pelo estado.
E o povo, segundo o imperador, precisa ver sangue;
Sangue na arena, sangue dos mártires – sangue do povo.
O estado forte esmaga a Nação miserável e faminta
E o imperador se deleita com o sangue da vindita.

14 de junho de 1983.


O CANTO DA TERRA-NINGUÉM

A criança estava brincando de matar...
Um dia, ele será homem...
... e continuará a brincar...
J.G. de Araújo Jorge.

Quero algo que seja novo,
Algo que venha do povo
E não seja um simples sonhar.
Eu quero uma canção aberta
E que seja do poeta
A sua forma de lutar.

Quero o ponteio da viola,
Não na mesma mão que esmola
Na feira do meu lugar,
Mas na mão do repentista
Que um dia se fez artista
Da cultura popular.

Quero o poder das moneras
Que rompendo suas esferas
Conquistam um outro reino.
Quero a rebeldia dos rios
Com os seus caudais bravios
Ampliando seu esteiro.

Quero as crianças nas ruas,
Não com as costas nuas
E o pão-da-vida a mendigar;
Quero-as livres e felizes
Tal qual correm as perdizes
Sob o esplendor do luar.

18 de junho de 1983.


MADE IN BRAZIL

O Brasil fabrica aviões;
Fabrica carrinhos e carrões;
Fabrica baionetas e facões.

O Brasil fabrica vaselina;
Fabrica a eletrola mais fina;
Fabrica alimentação canina.

O Brasil fabrica Itaipu;
Fabrica o mais encaroçado angu;
Fabrica Flamengo e Bangu.

O Brasil fabrica a mais fina cambraia;
Fabrica cabresto e cangalha;
Fabrica também rabo-de-saia.

O Brasil fabrica a vergonha nacional;
Fabrica birita e berimbau;
Fabrica fantasia e carnaval.

O Brasil fabrica seus generais;
Fabrica fome de canibais;
Fabrica dirigentes canalhas e anormais.

Sousa, 07 de julho de 1981.


PRENÚNCIO DE UM NOVO DIA

Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão

Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
Vencemos.

O povo tomou o rumo da barca...
Agostinho Neto.

Homens esqueléticos saem da noite quase eterna da escravidão
E timidamente põem a cabeça fora para olhar
De espreita
O límpido dia da liberdade e da justiça.
Como não acostumados à luz da liberdade
Estranham a claridade da igualdade transparecida.

Lívidos e assustados, os homens esqueléticos
Vêem a luz de um novo dia
Que se prenuncia festivo e geral.
Que se prenuncia forte como um verso libertário
Que “ameaça a segurança nacional” da pátria-colônia.
E os homens esqueléticos olham de espreita o novo dia.

É, pois, o dia da liberdade prenunciado
Por todos os versos subversivos da igualdade e da justiça.

E todos os versos que, por todo o tempo, anunciaram este dia
E foram censurados por “subversão e incitamento”
Serão o Canto Geral, não só da vanguarda libertária
(Que já não terá mais razão de existir)
Mas de todos os homens que serão, agora,
Simplesmente homens livres.

Será este o novo dia prenunciado por todos os versos subversivos
Porque será este dia o dia da liberdade e da justiça para todos.
Porque será este dia o dia mesmo da utopia.
Porque será este dia o dia mesmo do sonho
que já não é apenas fantasia.
Porque será este dia o último dia da exploração e do medo.
Homens esqueléticos saídos da noite quase eterna da escravidão
Cantarão neste dia o canto ensaiado em Palmares
E louvarão os companheiros sacrificados
Na grande luta desigual
E colherão para si o fruto do sangue de Zumbi,
Porque este será o dia da libertação total.

21 de abril de 1984.


POPULORIS

– Indigente não é gente!
(diz o agente).
– E agente é gente?
(pergunta o indigente).
– Pelo menos não é gente da gente.
(responde toda gente).
– Contra o agente usemos o reagente.
(diz um popular da gente).
– Quem sabe, um bom detergente!
(sugere o indigente).
– Aí, indigente será gente.
(diz toda gente).

– Em qualquer dia. –

4 comentários:

Rogério disse...

Essa poesia que país é esse vc copio da Legião Urbana? Sei não cara.

F. ANTENOR GONSALVES disse...

Publiquei este livro antes da "Legião Urbana" existir...
Ainda que eu curta muito "Eduardo e Mônica" e outras obras do grupo...

Carlos Eduardo disse...

Cadê você Antenor??? Sumiu??? Quanto tempo hein? Nem sei se ainda posso chamá-lo meu amigo, afinal faz tanto tempo que não nos vemos... Espero que esteja bem... Apareça e mande notícias... Ok...

Abraços.

Santino Silva disse...

Acorda Rogério...
Você não conhece este velho guerreiro, que já ousei a chamá-lo de companheiro...
Nem sei se mereço tal crédito!

Antenor, agradeço-te pela mensagem a mim enviada esta semana.

Continui postando, só assim teremos notícias um do outro.

Saudações

Santino Silva

Como podemos nós mesmos governar o mundo sem delegarmos poder a corruptos?

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