segunda-feira, 21 de maio de 2007

ANACORETAS


ANACORETAS

Notas:

1) Meus livros ANACORETAS I e II foram "recolhidos" - juntamente comigo - por agentes da ditadura militar.

2) ANACORETAS II - IGUALMENTE CENSURADO! - É UMA REPORTAGEM HISTÓRICA SOBRE OS BASTIDORES DAS ATIVIDADES DE ESQUERDA NO SEIO DAS FORÇAS ARMADAS; O CLUBE DOS SARGENTOS; O COMÍCIO DA CENTRAL DO BRASIL... TENDO COMO PERSONAGEM PRINCIPAL O OFICIAL DA MARINHA DO BRASIL GENTIL PIRES DANTAS.


“Com os pobres da terra eu quero minha sorte achar”.

Marti.


Para:
Chico Preto, Antônio de Xandu, Mãe Zefa, Nego Samba, Chico Grande, Antônio Costa (Antônio da Serra), Cadinho, Silva Vaqueiro, Itamar Cachacinha, Toninha de Bieta, Chico Grande, Xandu Preta, Zé de Ló, Alaíde, Zé Horácio, Felinto Furtado, João Doido, Beata Preta, Jacinta de Beata, Nega Joana, Nivaldo, Tetê, Luiz Coutinho, Mestre Titico, Maneco, Gordin Padeiro, Seu Cícero, Antônio Peixe, Zé de Antônio de Hermínia, Toínha de Chico Cândido... personagens de minha infância.

Para Toínho do Aguiar: “Oxente, bichin! Qualquer dia nós faz a Revolução”.

Para:
João Brasil – sem Brasil pra lavrar nem morar. Para Delmiro Violeiro – pelo tema para desenvolver: “Quero o amor do amor que me quer”.
Para João Esperança – cansado de esperar um dia melhor.
Para a finada Terezinha – colega de infância que a morte levou, quando do parto do primeiro filho.
Pela saudade de minha gente; pela saudade do cheiro de mato; pelo mote de amor – onde desenvolvi o amor e o mote.
Eh, boi Marujo! Campeão!... O carro de bois...
-Taca o ferrão nos bois, Chico!
Ah! Que saudade! Eh, boi!
Eu “tacava” o ferrão em Marujo e Campeão e o carro é que gemia.
-Oxente! o carro é que gemia?!
-Taca o ferrão nos bois, Chico!
Ah! que saudade!
A saudade é grande, Porcina! É grande... Eu nem sabia “tacar” o ferrão nos bois, você passava, eu gritava: Mamãe, eu vou pra casa de Porcina.
Chega!!! senão expludo de saudade. De saudade... Minha gente, que saudade! De saudade... minha gente... que saudade!...

F. Antenor Gonçalves.


“Yo,
Hijo de América,
Hijo de ti y de África,
Esclavo ayer de mayorales blancos
Dueños de látigos coléricos;
Hoy, esclavo de rojos yanquis azucareros y voraces,
Yo chapoteando en la oscura sangre en que se
Mojan mis Antillas;
Ahogado en el humo agriverde de los cañaverales,
Sepultado en el fango de todas las cárceles;
Cercado dia y noche por insaciables bayonetas;
Perdido en las florestas ululantes de las islas
Crucificadas en la cruz del Trópico;
Yo, hijo de América,
Corro hacia ti, muero por ti.
Yo, que amo la libertad com sencillez,
Como se ama a un niño, al sol, o al árbol
Plantado frente a nuestra casa;
Que tengo la voz coronada de ásperas selvas
milenarias,
Y el corazón trepidante de tambores,
Y los ojos perdidos en el horizonte,
Y los dientes blancos, fuertes y sencillos para
tronchar raices
Y morder frutos elementales;
Y los labios carnosos y ardorosos
Para beber el agua de los ríos que me vieron nacer...”

Nicolás Guillén.



“Chuva no sertão é um Deus: fecunda tudo.”

Dr. Bosambo.


A N A C O R E T A S


CAPÍTULO I

-Tio Amaro, o Zezinho saiu daqui inda agorinha, e queria falar com o senhor...
-E o que ele queria, Zefinha?
-Não sei, Tio, pois o senhor sabe como é o Zezinho; fala pouco e a gente nunca sabe o que ele quer. – fez uma pausa e continuou:
-Eu insisti muito para que ele dissesse o que queria, mas ele disse que só com o senhor mesmo.
-Você não acha que é uma admiração aquela criatura por aqui, justo hoje que ele está com um adjunto na Pitombeiras?! Se o espírito não me engana, deve ser doença lá pela casa dele. Você também não acha, Zefa?
-Pai... Ó, Pai... - gritou Mariquinha, que ainda vinha lá pelo oitão da casa; e logo em seguida, entrando com “cara de quem viu alma ao meio-dia”:
-Pai... o se-nhor n-ão ima-gi-na o que a-ca-bo de sa-ber... – tomou fôlego e continuou – a filha mais velha de Seu Zezinho deu à luz!!...

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e dizem que é filho do patrão dela, Pai! – soletrou Mariquinha, de tão cansada, enquanto se deixava cair sobre um tamborete que estava perto do paiol de rapadura, pois, de tão cansada já não podia se sentar – caiu!
-Para nós, aqui, minha filha, coisas assim já não são novidades...O que é de se estranhar é que o patrão foi procurar logo uma coruja daquelas, quando há tantas cabritinhas boas por aí, atrás dele... Zefa disse que Zezinho saiu daqui inda há pouco... Ah! Com’é mesmo que eu tava dizendo? Ah, pois é! O patrão doutorou-se agora, herdou essa fortuna toda do coronel pai dele e já recebeu a fazenda de Seu Cazuza pela conta que o coitado devia ao finado coronel (acho tão esquisito esse negócio de finado, minha filha, que creio que não irei me acostumar nunca!)... Vive lá pela cidade, onde só tem mulher bonita, e vir se sujar com uma coisa dessa!... Isso é o que me faz ficar cismado!
-Pai, - propôs Mariquinha – seria melhor se o senhor fosse lá na casa do Zezinho... Se ele veio aqui, é porque está precisando do senhor!
-Não... não, Mariquinha!! o doutor ficou

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de vir hoje com umas máquinas para a fazenda... Ele chega aqui e não me encontra, vai botar a gente pra fora. Quando o coronel me trouxe pra cá, me garantiu que eu morreria aqui como “gerente” dele, mas o coronel já se foi!... Vocês sabem que o novo patrão, quando se apossou disso tudo, fez uma “reunião” com tudo quanto é de morador e disse que não iria precisar da gente. Irá “modernizar” tudo. Que está pronto para indenizar a todos que queiram ir embora. Aqui, ele só quer máquinas! Além do mais, os boatos já andam por aí sobre o que diz o doutorzinho: “Quem manda no que é meu sou eu: sou dono, gerente e tudo”! Pelo visto, minha filha, ele quer somente a oportunidade pra dar com os pés na cara da gente!

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CAPÍTULO II

O velho Amaro não foi à casa do compadre, que fica na fazenda, pertinho - Pau Ferro, antigamente propriedade do Seu Cazuza.
Mas as máquinas vieram!!!!!! Estão aí...
-Quantas novidades têm aparecido depois que o doutor Mário se apossou de Jatobá e Várzea Grande!? A primeira foi no dia da festa do santo padroeiro, quando a gente estava na bolandeira e apareceu aquele barulho no céu; era um.... um helicóptero com o doutor Mário! – observou o senhor Amaro e continuou sua reflexão sobre as novidades da fazenda com o novo patrão:
-Depois, o telefone... e agora, essas máquinas que fazem tudo! O patrão tem razão em dizer que não irá precisar mais da gente!
Seu Amaro baixou a cabeça por alguns minutos. Ficou pensativo!... apoiou os braços cruzados sobre o jirau e sobre os mesmos a cabeça pesada – eram grandes os problemas de agora!
-Maricô?!... Ô Maricô? Vem cá!...

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Dona Maricô veio atender ao seu velho companheiro de todas as horas – cinqüenta e oito anos de casados! – mas veio em silêncio, e em silêncio ficou ali diante do seu homem que, para quem bem o conhecia, diria não ser feito de carne e osso mas de esperanças, trabalho e coragem, e temperado na forja do sofrimento – homem de boa têmpera, dir-se-ia.
Ele levantou a cabeça.
Entreolharam-se por algum tempo e ao mesmo instante, ambos baixaram a cabeça. Ambos miraram um ponto invisível – o passado.
As únicas coisas que podemos saborear sozinhos são a visão e o sonho – a reminiscência e a esperança!
O passado não só é bom porque já passou, mas sim, porque não mais voltará!
Seu Amaro e Dona Maricô tiveram horas difíceis, lá, isso é verdade, mas tiveram também suas horas felizes!
“Casaram-se em mil novecentos e quatorze: que festa! Também tocada por Agripino! Se não fosse o casamento de um primo de estimação e os ‘arrogos’ que fizeram, ele jamais teria vindo tocar! Principalmente naquela

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época que só tocava em festa de coronel – era
‘convite por riba de convite’ – costumava dizer com orgulho. A quadrilha marcada por João de Filormina e a comida por conta de Ma’joana, era impossível haver melhores! Em quinze, foi seco; em trinta, Seu Amaro foi a Princesa Isabel, pois ainda era cabra disposto! Voltou como herói. Foi quando o coronel Isidório apareceu lá pela fazenda de Seu Matias e o trouxe consigo.
Cinqüenta e oito?! nem se pode chamar aquilo de seca – umas chuvaradas lá pela entrada do ano indo até lá pelo meado do mês do Senhor São José...
As construções dos açudes de São Gonçalo e Boqueirão, abaixo de Deus, renderam algumas migalhas para muitos escaparem; mal, mas renderam, no decorrer dessas secas malditas – renderam muitos votos para os coronéis, lá isso é verdade, mas... E em l958, até que o governo deu umas olhadinhas para as misérias deste sertão velho; mas agora, as coisas tomaram o rumo que tomaram”!...
Foram estes, possivelmente, os pensamentos dos dois, interrompidos por Seu Amaro:

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-Maricô... inda tem café feito?
-... Só que já tá frio, Amaro.
-Serve... dá cá um golinho para ver se eu me despareço um tiquinho.
-Os meninos já chegaram? - perguntou Seu Amaro, depois de um breve silêncio.
-Não. Para que, Amaro?
Eu preciso muito falar com eles... Esta terra não dá mais para a gente. Temos que ir embora daqui! Isto não é mais lugar para um ser humano viver, não. Está aí: o gado está sendo melhor tratado que a gente! Uma farmácia e um médico especialmente para os animais; além do estábulo que é um colosso e da alimentação que deixa a gente com água na boca!...
-É isso mesmo, Amaro... É como diz o padrinho Juvêncio: “Não há mal que não traga o bem”. Não vê como os meninos do Chico Preto estão gordinhos, agora? É o efeito da torta que botam para o gado e dos tacos das rapaduras de boró que o touro Marujo deixa nas cocheiras. Ainda bem que o bruto é mansinho que faz gosto e deixa o Gabriel tirar alguns tacos de rapadura para ele e para os menores.

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-Que Deus, nosso Senhor, abrande o coração do doutor Mário, pois foi justamente isto que o patrão soube, em primeiro lugar, quando chegou ontem.
-Amaro!... pelo amor de Deus, não me conta uma coisa desta, homem! E quem foi esse espírito maligno, Amaro?
-Quem poderia, senão o vaqueiro, Maricô?! Quem, criatura de Deus?!
-Aquilo é cabra de peia! O Xavier sempre me deu esta impressão.
-Ah, meus vinte anos, Maricô! Eu faria justiça neste mundo... e não é só ele quem merece uma boa surra, não! Tem muita gente safada por aí, merecendo o mesmo ou mais!
Depois de um breve silêncio, Seu Amaro retomou a conversa:
-Sabe, Maricô?... eu tenho muita pena do Chico Preto com aquela reca de filhos... Se eu tivesse com que, um homem não ficaria naquela situação...
Seu Amaro respirou profunda e longamente, seus olhos marejaram, olhou meio de viés para a mulher e continuou:
-Parece que não tem jeito de se acabar mais sofrimento para quem nascer neste sertão

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de agonias.
Dona Maricô atalhou o desabafo do Seu Amaro:
-O coitado do Chico Preto vivia daquelas empreitadas de açudes, mas agora existem as máquinas que fazem essas coisas da noite pro dia; e por riba, o patrão não quer que o Chico, e nem ninguém, cri; e já mandou que Chico vendesse os jumentos – desse descaminho ao comboio. E como você já sabe, Amaro, Chico já vendeu as cangalhas por uma ninharia...
-É, Maricô... os meninos ainda não chegaram e estão me dando cuidado. Muito cuidado mesmo, sabe?
-Não se aperreia, homem de Deus; hoje tem cantoria lá pela casa do Neco e o Cícero é muito encapetado! Deve ter seduzido o Raimundo para ir até lá...
-Ih, Maricô! O Neco me convidou para eu comparecer na cantoria, como sem falta, e se não fosse você...
-E você vai?!
-Vamos. Eu prometi para ele que iria e vou mesmo. Se vocês não querem ir, eu irei sozinho. Passei por lá, pela manhã, e o Neco já

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havia aprontado o pavilhão. Só faltavam algumas palhas de coqueiro na latada. – e pegando o chapéu de palha, disse:
-Diga pra Mariquinha e Zefa que se arrumem depressa, senão a gente perde os improvisos.

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CAPÍTULO III

Cícero e Raimundo estavam, como previra Dona Maricô, na casa do Neco.
Cícero era aquele moleque de cabeça grande, sempre traquino como só ele mesmo, que não gostava da companhia dos outros meninos; é tanto que ele já está homem feito e nunca se montou num cavalinho de pau nem catou chifres nos monturos para brincar de boiadeiro. Assim era o Cícero criança. O que ele gostava de fazer era carrinhos com latas de doces, sardinhas ou de óleo e algumas tábuas que achava lá no oitão da casa-grande da fazenda e vendê-los ou trocá-los com os outros meninos. Com oito anos, já ganhava para botar água na casa do coronel Isidório. É que o moleque impressionava mesmo. Quando os galos estavam amiudando, ele já havia ido à Manga da Bagaceira, pegado o jumento Piloto, posto a cangalha e as ancoretas no lombo do jegue e estava a caminho do açude com o galão no ombro. Galãozinho feito de duas latas de biscoitos, por ele mesmo; e compradas com todas

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as suas economias adquiridas com a venda das peles de tejos que Presidente acuou – Presidente era o nome do cão vira-lata – e ele matou, esfolou e espichou. Do Açude Grande até a casa do coronel Isidório, era de um só fôlego, pois tinha que ir para a escola do Grupo Escolar de Vila Nova; e além do mais, seria logo chamado de “cabra mole” todo aquele que ficasse para trás.
-Vamos ver quem chega primeiro?! – gritava Cícero.
-Vamos! – respondiam os demais.
-Quem ficar por último, é filho da puta! – era sempre a voz de Cícero lá na frente, tangendo Piloto para chegarem o mais rápido possível.
-Pois eu estou atrás de vocês, Cícero; já levei duas por uma de Belarmino e não sou filho de quem você diz não! – queimou-se Expedito de Neco.
Era assim mesmo.
No caminho do açude, um juazeiro velho, que, quando o Padrinho Juvêncio nasceu já era aquilo mesmíssimo que está ali agora, era o ringue dos botadores de água.
Estava formado o pé-de-briga.

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A cabroeira atiçou a sanha.
Cícero parou, pôs o galão d’água no chão, amarrou Piloto e foi diretinho para o juazeiro.
Expedito fez o mesmo. Ficaram frente a frente. Ambos ficaram parados – cada um esperando que o outro começasse. Porém, como nenhum começava, João Moleque se impacientou, fez dois riscos no chão e disse:
-Este é a mãe de Expedito, e esse aí é a mãe de Cícero. Aquele que pisar a mãe do outro é o mais valente.
Os dois sapatearam sobre os riscos feitos na terra ressequida.
-Agora, eu quero ver quem pisa o pé do outro!...
Cícero pisou primeiro e foi o bastante.
Pegaram-se e o pau quebrou.
Rolaram pelo chão: ora um, ora o outro ficava por cima e aí aproveitava a oportunidade para bater bem na cara do outro.
-Ai! – gritou Expedito, contorcendo-se, numa careta mais horrível do que sua careta nata.
-O que foi? – perguntou Cícero, rolando para o lado direito.

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-“O que foi?”! Ora o que foi! Uma dor fina em minhas costas.
-Deixa eu ver o que foi mesmo.
-Olha logo! Parece que está saindo sangue, Cícero?
-Está, mas é pouquinho... Ah! não foi nada, não. Só um espinho de juazeiro. Olha para o céu que eu vou arrancá-lo. Agüenta firme.
-Mas está ardendo!...
-O quê?
-O espinho!
-Ora essa! Pode ser outra coisa, porque o espinho já está aqui, olha... já arranquei...
-Ei, vocês não vão brigar mais? – perguntou João Moleque, dirigindo-se a Cícero.
-Não, João Moleque. Não está vendo que Expedito está sangrando? E quando a mãe dele ver isso, dará outra surra nele!!
-Mas foi você quem começou...
-Eu não. Foi ele.
-Foi você quem descompôs da mãe dele.
-Não foi da mãe dele, não. Foi de qualquer um que ficasse por último.
-Mas era ele quem vinha atrás... Eh! espera aí!!! Mas você quer dizer que disse aquilo

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até com a minha mãe?
-Com a sua, não, porque você nem sabe quem é. Seus pais eram retirantes e quando passaram por aqui, em Jatobá, acamparam neste juazeiro e mamãe me disse que você nasceu aqui debaixo. Foi em cinqüenta e oito que você nasceu. Seus pais moravam lá pelas bandas de Lavras da Mangabeira, no Ceará. Ela disse também que eles se tornaram retirantes por causa da seca.
-Já me falaram disso. Eu quero é saber se vocês não vão brigar mais?
-Não. Fica pra outra vez. Hoje, não. Papai vai saber que eu fiz sangue no Expedito... Ele vai me dar uma pisa e não vai deixar eu ir para a escola enquanto ele bem entender...
Cícero sempre foi assim – um pouco esquisito e ainda o é hoje. As dores e os problemas do seu próximo são seu pesado fardo. E é a única esperança de um futuro melhor que a família e os amigos têm.
Outro dia, quando o governador do estado veio a São Gonçalo – “passar o fim de semana” – ele teve a ousadia de ir até lá reivindicar uma escola e assistência de um médico – “ao menos uma vez por mês!” para Jatobá

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e Várzea Grande.
-Parabéns, Cícero. Você tem muita coragem. Ninguém, aqui, tem a coragem para fazer o que você fez: ir a São Gonçalo, especialmente para falar com o governador e pedir alguma coisa para nós! – era o que diziam todos em Jatobá e Várzea Grande, quando Cícero voltou.
-É... Obrigado! – era sempre a resposta de Cícero. - É verdade que deu um trabalhão danado, mas tive recompensa. O governador me recebeu bem. De início, disseram que ele não estava, mas eu fiquei insistindo – eu tinha a certeza de que ele estava lá, pois eu tinha visto quando ele chegou e se hospedou no hotel. Juraram-me que ele não estava, mas eu tinha a certeza que sim. Foi quando eu me impacientei – entrei de supetão e lá estava o dito cujo dando ordens pra um cabra me despistar, dizer-me que o governador havia seguido para o Brejo das Freiras. Mas o cabra ficou vexado, fez sinal para o governador como quem queria dizer que a pessoa de quem estavam falando estava ali presente, que já não podia mais se esconder de mim. Aí, o governador se vexou mesmo... Pois não é que ele chegou a fingir até

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que me conhecia!!! Quis acertar meu nome, mas não acertou não. Eu contei para ele a situação da gente; ele ficou espantado com o que eu contei do sofrimento da gente; aí ele me deu a palavra de honra dele de que logo que chegasse na capital iria providenciar uma escola e um médico para a Vila uma vez por mês. O médico só poderá vir até a Vila.
-Já é muita coisa, se ele fizer isso para nós. – duvidou Tibúrcio.
-E vai fazer, Tibúrcio. Vou lhe mostrar ainda que vai.
-Queira Deus, Seu Cícero. E veja lá o senhor que já faz pra mais de seis meses que a gente espera pela tal vontade alheia, que para mim, esperar só pela vontade de Deus. E veja ainda o senhor, Seu Cícero, que não é todo dia que se está pronto para esperar nem pela vontade de Deus, não!
-Tibúrcio, eu já lhe pedi para você não me tratar mais por “senhor”, não foi?
-Foi, mas é modéstia do senhor...
-“Senhor” novamente, Tibúrcio?!
-Como eu ia dizendo, Seu Cícero, o senhor é muito modesto. O senhor já é quase um doutor; já está estudando na cidade porque não

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pode mais estudar em Vila Nova - estava sabendo igual, ou mais, que o professor. E olha que Antônio Professor é bem entendido! – sabe fazer até carta!
-Mas não é motivo para você me tratar por “seu” nem “senhor”, Tibúrcio.
-Ah, Seu Cícero!... isso não. Meus pais não me ensinaram esses desaforos. O senhor é um rapaz de bem.

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CAPÍTULO IV

O concreto está além do visível – o que vemos é somente a sombra. Uma imagem verdadeira ou falsa daquilo que está além do perceptível, dependendo de quem ver...
O abstrato é invisível, mas nunca inabalável.
O nordestino é a sombra de um povo esquelético; sepultado na poeira das secas contínuas e infindáveis; nas emboscadas do oitão da casa ou da parede do açude. Sepultado na esperança de melhores dias e coberto de promessas falsas!... Sepultado no esquecimento.
Repito: o nordestino é a sombra de um povo esquelético...
Mas não olvidemos: o concreto está além do visível – o que vemos... o abstrato é invisível, mas nunca inabalável!...
O nordestino ainda vive sepultado no esquecimento ou na ilusão...
E exemplo típico disso é Amaro José da Silva, mais pária do que cidadão!!!...

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-Eu não acredito nesse negócio de aposentadoria... Está aí o Padrinho Juvêncio, coitado!... até escravo já foi! – comentou Dona Maricô – E ainda vive morrendo pela vida, trabalhando noite e dia para sustentar os netos, bisnetos, tataranetos e quanta coisa há, que nem sei como aquele vivente ainda consegue forças para tanto! E bem que ele merece ser aposentado, mas não!! Vêm essas coisas para nós, pobres, e está aí: quem se lucra com essas coisas são sempre os que não necessitam... Diga, pelo amor de Deus, se a viúva do coronel Isidório necessitava disso? Eu acho que o governo não está sendo justo agindo assim, não. Não entendo bem dessas coisas, mas acho que há algum mal entendimento nisso...
-Cala essa boca, Maricô! Você não sabe mesmo de nada, – atalhou Seu Amaro, um tanto afobado – e põe-se aí, falando asneiras! Você sabe que “mato tem olho e parede tem ouvido”, sem saber nem o que diz... O governo quer fazer alguma coisa por nós, mas os homens que se encarregam dessas coisas nunca fazem como mandam as ordens. Vai lá que o governo está ciente de que estamos todos aposentados!!... E o Padrinho Juvêncio bem que já

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podia ter a sua oposentadoriazinha, mas é que ninguém se interessa por essas coisas.
-E por que você não tá aposentado?! – interrogou Maricô, fazendo pouco caso do que Seu Amaro dizia. – Ou você já se esqueceu de que você já foi à cidade por... sei lá quantas vezes! e o que foi que você conseguiu? Você conseguiu aborrecimentos, e muitos; você conseguiu muitos “volte depois”, que para mim estou vendo... O que você conseguiu foi vender a criaçãozinha de cabra pra comprar o terno novo de cáqui, que já tá que não há mais lugar pra por remendos no fundo da calça, de tanto você subir e descer do caminhão do Compadre Venâncio, para ir à cidade – que já é coisa certa Amaro ir todo sábado à feira de Antenor Navarro!
-Cala essa boca, mulher dos diabos! Hoje, você parece que amanheceu com os lundus de sua mãe ou com a avó torta por trás das orelhas! (Que Deus tape as ouças delas onde estiverem). Eu bem que já havia percebido isso. Para começar, você se levantou da rede e não fez nem o “pelo sinal”. E depois, calçou os tamancos trocados: do pé esquerdo, no pé direito; do pé direito, no esquerdo. Isso é mal.

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-Bons dias, Seu Amaro! Bons dias Dona Maricô! – disse Tibúrcio, que acabava de chegar.
-Bons dias, Tibúrcio; como vai a família? – perguntou Amaro, um tanto desinteressado.
-Bons dias... com licença... – respondeu Dona Maricô, retirando-se para a cozinha.
-O que foi que Dona Maricô viu, Seu Amaro? Foi só por causa que eu cheguei?!
-Não liga para essas coisas, não, Tibúrcio; a Maricô tem andado assim mesmo.
-E como vão as coisas, Seu Amaro?
-Daquele jeitão: tudo de mal a pior!
-Essa gente fala demais e não se sabe nunca em quem se acredite; “uma abelha zoou” lá por casa que vocês vão embora?!
-Vamos... desta vez vamos mesmo. E agora não há mais o coronel para nos prender aqui, prometendo “mundos e fundos”, não. Tibúrcio, eu estou ciente de que rico só quer ver o couro de nós pobres...
-Disso, eu já estava ciente há muito tempo. – atalhou Tibúrcio.
-Pois é... está aí o Cícero... Lembro-me como se fosse hoje: pobre do Cícero, com toda

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aquela carreira danada para botar água na casa do coronel e ganhar tempo para ir à escola, e quando o coronel Isidório me chamava lá debaixo do alpendre da casa-grande só para me dizer: “Amaro, tira aquele moleque da escola; bota-o na cangalha, que filho de pobre é como burro – só serve para cangalha mesmo”. E eu até que achei que o coronel estava certo. Tirei o menino da escola, mas aquele nasceu para essas coisas! Eu levava o Cícero comigo para o trabalho, mas quando eu cuidava que não, o Cícero já havia escapulido! Eu chegava em casa e procurava por ele, mas qual nada – Cícero havia teimado e tinha ido para a escola... E está aí o resultado... Eu queria que o coronel fosse vivo para eu passar tudo isso na cara dele.
-É, Seu Amaro... – disse Tibúrcio tirando a lata de rapé do bolso, e tomando uma pitada em cada narina, espirrou umas três vezes seguidas e continuou falando:
-Como eu ia dizendo, Seu Amaro... tem rico bom, lá isso é verdade, mas é de um cento que se tira um. Não vê os Almeida?! Pois me diga quem é que presta daquela corja, pelo amor de Deus?... Pra mim, o único que inda dá

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pra “aproveitar” é o Pedrinho, e assim mesmo não vale nada!
-Não estou agravando os outros, mas para mim é o único que ainda presta ali. E assim mesmo já anda despeitado com o Cícero, só porque o menino tem amigos por toda parte e está fazendo muita gente ficar de boca aberta com o saberzinho que ele conseguiu a muque. Não é porque o Cícero é meu filho, não, mas aquele vai vencer logo na vida.
-E bem que ele merece, Seu Amaro; o senhor pode dizer que tem um grande filho que está conseguindo vencer na vida com os próprios esforços. O senhor pode se orgulhar de ter um filho daquele!
-E me orgulho mesmo, sabe? E tenho desgosto por nunca ter feito nada pelos estudos dele, e ainda hoje eu sinto uma revolta bem grande aqui dentro deste peito – Seu Amaro bateu com a mão fechada sobre o peito esquerdo, com ímpeto, e com a voz trêmula continuou falando, como se fosse de si para si – e quando falo nisso eu sinto um nó bem aqui. – apontou para a garganta com o dedo indicador e continuou – Tenho vontade de chorar. Eu sinto revolta em pensar que fui rude

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para com ele. Mas, sabe, Tibúrcio? Às vezes me conformo, principalmente quando eu pego a falar nisso e ele me diz que eu não tenho culpa de nada. Que se há algum culpado pelas dificuldades que ele enfrentou, é outro, não eu. Que eu tinha minhas razões: a péssima condição financeira e a falta de motivação, que é a pior coisa.
-Falta de quê?!... – atalhou Tibúrcio.
-Motivação!
-E o que é isso, Seu Amaro?
-Perguntei para ele e ele falou que é a ignorância do valor real de alguma coisa; que eu não sabia da importância que tem o estudo. Ele também chama “conscientização”! E que se há culpados por tais dificuldades alheias, são aqueles que são conscientizados e têm condições mas não fazem nada por ninguém, a não ser chegar para a gente e dizer: “Deixa isso de mão, que você não dá para essas coisas não”. E é mesmo, Tibúrcio; Cícero tem razão. Eu me conformo um pouquinho, mas quando ele me diz essas coisas numa conversa bonita que faz gosto... e é tanto que estamos todos na escola...
-Até o senhor!?... – indagou Tibúrcio.

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-Até Maricô, quanto mais eu!... Mas logo agora que a gente tá tomando gosto de verdade, logo agora, a escola vai fechar.
-Fechar!? Por quê? – perguntou Tibúrcio, com espanto.
-É o Antônio Professor, coitado! Não agüenta mais ensinar de graça.
-De graça?!
-Sim, de graça; pois já está com mais de três meses que ele não recebe pagamento... Pode ser uma coisa dessa?! E quem vai dar de comer à família dele?
-Mas ele ganha bem – setenta cruzeiros por mês é um dinheirão! Setenta só do MOBRAL. E ganha para ensinar no grupo de Vila, por conta da prefeitura.
-Ganhar eu sei que ele ganha, mas receber é que é o difícil. Três meses sem ver nem a cor do dinheiro.

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CAPÍTULO V

-Não é por causa que atearam fogo na bagaceira que vou perder minha cana! Fizeram de propósito, eu sei. Para mim, estou vendo o desgraçado fazendo lá os planos dele: “Toco fogo no bagaço e a lenha do Neco vira fumaça também. Aí, ele não tem com que moer a cana, tão cedo, pois os burros de carga o doutorzinho vendeu todos e o trator está botando a lenha dos outros moajantes”. Mas eu mostrarei que nem que o mundo se arrebente, eu hei de moer a minha cana! Eu mostrarei a esse desgraçado...
-Neco!... está conversando só?
-E com razão para isto. Fazer um sacrifício danado daquele para ver tudo por terra!!!
-Que sacrifício, Neco? – perguntou Dona Ana.
-Ainda pergunta!? Aqueles preparativos todos para a moagem. Você acha que não foi um sacrifício? Pois pra mim foi.
-Calma... calma... Não precisa desses arrebates todos, não!!!! Eu perguntei qual foi o

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sacrifício, pois aqui eu já nem sei mais o que não é sacrifício!... Está aí: o Raimundinho saiu bom de casa e chega para morrer... bucho inchado...
-Parece um castigo uma coisa desta... Por cima de tudo isto, esse menino achar de cair doente logo hoje... (Neco falou como se o filho fosse conscientemente culpado pela sua própria doença). Não sei mesmo como me atar! O que foi mesmo que esse menino comeu, mulher de Deus?
-Sei lá, homem... e pelas cinco chagas de nosso Senhor Jesus Cristo não me pergunta mais, que eu não sei não. Tudo que eu sei é que ele se levantou cedinho e foi apanhar tiborna para os porcos, lá no engenho, pois foi você mesmo quem disse para ele ir, pois você já tinha pedido ao Dr. Mário e ele deu ordem para você mandar apanhar uma lata de tiborna dia sim, dia não.
-Esse cachorro danado deve ter tomado muito caldo de cana e comido muita rapadura quente para agora está aí empanzinado – só para dar trabalho pra gente! Pergunta para ele o que foi que ele comeu para poder dar um chá de macela, olho de goiabeira, quebra-pedra; de

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alfazema braba ou qualquer outra mezinha que sirva para bucho inchado e caganeira.
-Eu perguntei, mas foi perdido – ele diz que não foi nada não.
-Espera aí que ele diz já o que foi que ele comeu! – disse Neco, retirando o relho que estava dependurado no armador, pertinho.
-Você não vai me dizer que vai bater no menino, doente como ele está, vai, Neco?! – perguntou Dona Ana, um tanto preocupada.
-É o jeito... ele tem que dizer o que comeu.
Seu Neco ia falando enquanto se dirigia para o canto da sala, onde Raimundo estava encovado na tipóia feita por sua mãe, Dona Ana, de dois sacos vazios de farinha, que carinhosamente costurou e teceu os punhos, tudo a mão!
Neco ameaçou o filho:
-Você diz o que comeu ou “entra já no que dói”!
-Não foi nada, pai! – respondeu Raimundo, com voz suplicante, própria dos indefensos.
-Vamos... diga logo ou...
-Eu já disse, pai: não foi nada!

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-Não vai dizer, não é mesmo? – Neco levantou o relho e...
-Eu digo, pai! Eu digo!...
-Então diga logo, cabra ruim.
-Eu fui buscar a tiborna e já ia com o sentido no caldo de cana, mas quando eu cheguei no engenho, o doutor Mário e Seu Amaro estavam lá. Aí, Seu Amaro me chamou e disse que eu não o levasse a mal, mas o patrão dera ordem para que ninguém nem ao menos entrasse no engenho. Eu fiquei na banda de fora apanhando a tiborna e vendo o caldo da cana escorrendo lá dentro (da gamela para o tacho). E quando a lata encheu de tiborna e eu fui apanhá-la, caiu um pingo da desgraçada da tiborna bem aqui, - com a magérrima mão apontou o lábio inferior – e eu não tinha intenção de beber, mas senti o gostinho doce da bicha e não pude mais me controlar: bebi o quanto pude...
-Peia não é santo mas obra milagre; está vendo, Ana? – Neco fez uma pausa e continuou:
-Bem que eu estava desconfiado de que este cabra tinha comido alguma porcaria: foi mesmo na batata!! E num é que eu sou macaco

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velho mesmo, não sou, Ana?
Por fim, aconselhou:
-Dá um chá de casca de marmereiro que ele fica bom, já-já! (É um santo remédio).
-E se não melhorar?...
-Você vai com ele pra Padrinho Juvêncio benzê-lo. Aí eu quero ver se ele não fica bom!... Mas antes, traga meu chapéu, que eu vou ver como andam as coisas lá pela vazante. O coitado do Expedito ficou sozinho para pastorear a baixa de arroz, que o papa-arroz está com tudo, tem como diacho! E se não plantar a rama de batata, todinha, daqui para o por do sol, a rama vai ficar perdida, pois, confiando em Deus Nosso Senhor, daqui para a barra clarear, vai ser chuva que vai fazer gosto! E se não plantar a rama toda hoje, a enchente vai levar tudo e aterrar as covas. Só pode ser muita chuva este calor que está fazendo hoje, com esses torreames amarelos no nascente... e era experiência do finado meu avô, que para mim estou vendo ele dizer: “Estando fazendo verão e aparece tanajura, pode contar com açude cheio”. E era mesmo! É por isso que eu digo que de hoje não passa...
-Ah! seria bom se você falasse pela boca

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de um anjo, Neco!... Eu “roubei” a imagem do Senhor São José, do Padrinho Juvêncio, e vou já preparar o andor, porque, se chover hoje, amanhã a gente faz uma procissão com o Santo São José, saindo daqui de casa, indo até o Cruzeiro e terminando na casa do Padrinho Juvêncio.
-Mas está danado, Ana! Eu não tenho nem um centavo para comprar os festejos, nem as fitas nem nada.
-Besteira, homem! Desde o dia que eu “roubei” o Santo que eu venho ajuntando um dinheirinho para isso mesmo...
-Ajuntando esse dinheirinho de quê?!
-Dos ovos das duas galinhas que ainda não levantaram as posturas e do meu ganho de lavar roupa e varrer terreiro para Dona Chiquinha... - Dona Chiquinha é a viúva do coronel Isidório.
Neco pôs o chapéu e saiu. Dona Ana o acompanhou até a latada. Seu Neco seguiu caminho – não tinha mais tempo a perder -, pois a chuva poderia vir.
Dona Ana se debruçou sobre a cerca da latada e pôs-se a contemplar o marido que, de pouco em pouco, se sumia!! Sumia-se em duas

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estradas: a que o levava ao roçado e a que o levava ao fim de tudo.
Aquele vulto estava diminuindo... diminuindo... A cada posso ele diminuía mais: diminuía pela distância que os separava; diminuía pelos anos que agora o faziam curvo, impotente, minado – um vulto... uma sombra do que fora ou, pior! do que poderia ter sido e nunca fora...
Ficou invisível aos olhos da mulher. E quando ficará para sempre invisível?
-Dona Ana? Ó Dona Ana?
-Hem?! Que foi, João Moleque?
-Estava pensando, Dona Ana? Em quê?
-Na vida, João. Na vida! O que significa isso tudo?! Neco saiu e eu fiquei olhando para ele... Quarenta e sete anos de casados!... e sempre moramos aqui e sempre essa mesma coisa: de casa para o roçado... de casa para o roçado... Só muda quando é do roçado para casa. E nunca conseguimos nada na vida...
-Dona Ana, passei lá na casa de Seu Amaro, inda há pouquinho, e ele mandou dizer que a senhora mandasse apanhar umas roupinhas velhas que ele trouxe da cidade... Foi a Dona Mimosa quem mandou pra senhora.

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-Tá bem, João! Tá bem. Vou já mandar o Maneco buscá-las...
Dona Ana deu meia volta e entrou em casa, gritando pelo filho:
-Maneco?! Ó Maneco?!
-O que foi, mãe?
-Vai depressa buscar umas roupas velhas que a Dona Mimosa mandou pra gente. Estão na casa do compadre Amaro. Vai correndo! Olha... eu cuspo no chão...
Maneco fez carreira – partiu em silêncio. “Carreira fechada”! Os calcanhares batiam nas nádegas.
Em pouco tempo estava de volta com um pacote na cabeça. Só que agora não vinha mais correndo – é que o pacote era um tanto grande e ele já estava cansado! E ele andava meio cansado nestes últimos dias. Ainda chegou a tropeçar uma perna na outra e cair; cortou o joelho esquerdo quando caiu, mas não foi nada não! Pôs um pouco de terra em cima do ferimento – “que serve pra atalhar o sangue”! Dor, ele não sentiu! – cabra que geme é cabra de peia... cabra mole! Cabra frouxo! Seguiu caminho como se nada houvera, pois a mãe já estava impaciente de tanto esperar.

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-A casa do compadre Amaro fica aqui, pertinho – é só passar a porteira e está lá! – Dona Ana ia falando enquanto se dirigia para a porta. Avistou Maneco que vinha lá pelo monturo da casa e gritou:
-Anda depressa, menino dos diachos! Para ir ali passa a vida inteira!
Maneco mal acabou de chegar, a mãe arrebatou o pacote e o abriu com pressa – tinha ânsia de ver se a roupa ainda dava para aproveitar. E espantou-se quando viu o estado da roupa:
-Como é que se tem coragem de chamar umas coisas destas de “roupas velhas”?!?! É até uma loucura, menino! Vai dar para a gente vestir por muito tempo! E vieram em boa hora (a gente já não tinha mais nem o que vestir!) - Dona Ana ia falando em voz alta e de si para si:
-Isto é roupa de se ir a muitas festas!...
Foi quando Neco chegou. Dona Ana foi ao seu encontro saltitante de alegria – ela esqueceu o peso dos anos! Abraçou o marido (coisa que já fazia muito tempo que não fazia!) e tratou logo de mostrar a roupas que a Dona Mimosa mandara.

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-Aquilo é que é ter o coração de ouro!... Uma pessoa daquela tem a alma para Deus – disse Dona Ana, depois de um breve inventário.
-Nem vale a pena... – disse Neco.
-Por que, homem?... Deixa de ser mal agradecido! A Dona Mimosa teve tanto gosto em mandar...
-Não é isso, mulher! Não é isso... É que eu estou aperreado... Não lhe disse logo para não lhe fazer sobrosso... o coitado do Expedito foi mordido...
-De cobra?! – antecipou-se a mulher.
-Cascavel!...
-... e ele ficou onde?
-Ficou na casa do Padrinho Juvêncio para ser curado. O Padrinho Juvêncio cuspiu sumo de fumo na boca dele e me disse que ele precisava ficar lá pra ele fazer umas benzeduras e evitar os maus-olhados.
-Eu tava tão contente que nem tinha dado pela falta do Expedito. – justificou-se Dona Ana.

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CAPÍTULO VI

Domingo!!!...
Dia de feira em Vila Nova! E dia de feira em Vila Nova não fica ninguém pelas redondezas – principalmente quando é dia de missa (que são duas vezes por ano!): na festa do santo padroeiro São Sebastião –“louvado seja o seu santo nome por ter protegido sempre Vila Nova da peste, fome e guerra”! – e a segunda, quando o padre da freguesia vem em comissão tirar “algumas contribuições para a festa da padroeira da cidade.
Em dia de festa, todos os caminhos são convergentes para Vila Nova. E lá, bem debaixo da bolandeira, estão as tendas do Mulato Tião, de Maria Louceira, de João Bodó e outras e outras...
O Mulato Tião esculpe toda diversidade de santo – do careca São Pedro ao cabeludo Santo Onofre! Do Jesus de olhos azuis ao São Benedito preto retinto!!! e trabalha no gesso, no osso – ele também esculpe no osso -, na madeira... com a mesma naturalidade, maestria

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e perfeição.
Já Maria Louceira, parece-me que, partindo do princípio de que “Deus fez o homem de barro”, não se contenta somente em fazer utensílios de uso doméstico – quer ir além! Representa cenas inesquecíveis e personagens famosos da história de Vila Nova em cada uma de suas obras de barro, às quais “falta somente o sopro divino pra serem reais” – segundo ela.
E João Bodó?
Este aí, com um sem-número de versos! Parece ser a fonte inesgotável da literatura de cordel do Brasil!
São artistas! São mais que artistas: são heróis. São estrelas que, pelo fato de não se chamarem “Tom”, Mary” e “John” não brilham nos céus artísticos dos Mrs. das artes.
E João Bodó muitas vezes se revolta com muitas coisas que, para ele, andam erradas. Ao redor de sua tenda não forma roda de gente somente para comprar seus impressos. A maior parte quer ouvir sua conversa bonita falando de “justiça humana, do mundo e sua estrutura errada”.
-Conterrâneos! Não sou eu e nem somos

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nós de Vila Nova que vamos aprumar esse mundo velho e torto, não; mas é preciso lutar, que um dia o nosso sacrifício valerá a pena.
E assim, João Bodó vai vendendo os seus folhetins e levando essa vida danada.
Outro dia, ele não teve o que fazer, pegou o morcego do caminhão de Seu Venâncio, que carregava rapadura para ser vendida na feira livre de Sousa, e foi bater na cidade. E fez aí muitas presepadas. Voltou para casa depois de mês que havia saído. E depois de andar a cidade toda! Subiu também o bairro da Estação e visitou as casas de “mulheres de vida livre”; dentre elas, o “Palacete de Célia”. João Bodó desceu o bairro da Estação e no centro da cidade ele aprontou mais uma. Parou em frente a lanchonete Teimosa e da calçada ouviu uma converseira adiantada sobre boicotagem, Watergate e as próximas eleições para deputados e senadores... João Bodó entrou na lanchonete e reconheceu um dos que ali conversavam – um candidato a reeleição para deputado estadual... cara conhecida – ele já estivera na Vila, angariando votos... João Bodó tirou um amarrotado papel de embrulho do seu roto bolso, atirou-o sobre a mesa, onde corria a

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prosa misturada com cerveja, enquanto ia dizendo:
-Senhores! Será que isto vale uma lata de leite em pó e uma caixa de arrozina?
Seu subconsciente acusava, talvez, o choro de fome da filha.
O candidato a reeleição pegou o papel, leu, passou-o aos companheiros, tomou ares de crítico, fitou bem o João e falou:
-Muito bem, rapaz! Só que você é muito pessimista...
João atalhou:
-Eu perguntei se vale uma lata de leite em pó e uma caixa de arrozina...
-Vale!
-Você dá?
-Dou. Apareça em meu escritório que preciso falar com você.
-E onde fica seu escritório?
-Você não sabe onde fica meu escritório!?!?!?!?!?
-Não! E tenho a obrigação de saber, por acaso? – João foi falando e se retirando. Nunca apareceu em escritório coisa nenhuma. O que ele queria mesmo era criar aquela grande piada, pois na verdade João não queria trocar o

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seu papel de embrulho por coisíssima nenhuma do mundo. Naquele papel estava o seu mais recente poema. E que poema!!!!!!!!!!
Senão, vejamos:

“Fico sempre indeciso quando me perguntam:
-Vale a pena viver?
Quando muito eu respondo com outra pergunta:
Isso é viver ou “estamos aí”?

E insistem na pergunta:
-Vale a pena viver?
E como sempre eu respondo:
Isso é viver ou somente existir?
É um eterno chorar ou momentâneo sorrir?

Mas há sempre quem pergunte:
-Vale a pena viver? Vale a pena estar aqui?
E sempre perguntando eu respondo:
Você acha que viver é isso –
Sempre sonhar e nunca dormir?

“O que vale a pena, enfim?” – insiste alguém.
“Você ainda não se decidiu?”
Para mim vale a pena amar! Esperar! Querer!
Lutar – perder ou vencer!...
Vale a pena esperar o sorriso de alguém.

Vale a pena sonhar com um dia melhor
(que não sei quando virá!)
E nem mesmo se virá esse dia!
MAS VALE A PENA!!!”

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Da lanchonete, João rumou até ao Gato Preto; e aí, viu coisas que fizeram João desejar mil vezes ter nascido cego.
Agora se faz necessário que eu diga que o Gato Preto é o mais afamado açude da Região. É bom que fique claro que não é lá um açude grande, mas ele está sempre cheio de seca a inverno! – mesmo com tantas secas! -, e para isso são suficientes os esgotos que para lá convergem. É um açude pequeno com um grande número de grandes histórias. “Histórias de assombrar crianças, fazer gente grande tremer e o Padrinho Juvêncio se benzer três vezes” (conforme todos dizem por lá).
Já ouvi muitas vezes a estória das trezentas e setenta e duas moças que foram “defloradas”, “desonradas” lá! e que “um dia, quando completar o número seiscentos e sessenta e seis – que é o número da besta-fera – o mar vai alagar a cidade de Sousa e o açude do Gato Preto será a cama de uma baleia!”.
Beirando a parede traseira de uma fábrica de doces, fica a água lamacenta do Gato Preto, e aí descem pelo buraco de esgoto, as goiabas e bananas deterioradas, rejeitadas pelos doceiros. Mas antes dessas frutas caírem na

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lama, dezenas e dezenas de seres humanos maltrapilhos e famintos estão aos empurrões, na disputa pela banana ou da goiaba cheia de tapurus que vem de esgoto abaixo. E, como sempre, no mundo dos animais, vence sempre o mais forte; e quando este sacia a sua fome, inclina-se sobre a água lamacenta do Gato Preto, na qual todos eles estão com os pés dentro, e bebe daquela lama até a grande barriga não o permitir mais naquela posição.
Isto é o máximo que se pode descrever do que João Bodó ouviu e viu no Gato Preto.

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CAPÍTULO VII

Pobre do Expedito! Já um rapazinho... mas é que mordidura de cobra cascavel não é brincadeira não.
O Expedito já estava quase curado mas foi fazer extravagância, teve a morte como pagamento.
-Quando uma cobra cascavel morde um por essas bandas, - é o que todos dizem em Vila Nova e arredores – só o Padrinho Juvêncio, abaixo de Deus, é quem salva. Mas é preciso ter muito cuidado e fazer só o que ele manda.
-O filho do Neco morreu a míngua, coitado! – comentava o Zezinho que acabava de engolir mais uma bicada de cachaça, escorado no balcão da bodega do Aristides.
Xavier, que acabava de entrar, foi logo participando da conversa:
-Foi mais descuido... Num tá vendo que Juvêncio velho num cura mais ninguém?!...
-Descuido uma conversa!!! Maldade do seu patrão (pois aquele doutor de merda num é

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flor que se cheire!); o pobre do menino tava se esvaindo em sangue (era sangue até pelos pés dos cabelos) e foram chamar o doutor Mário pra dar uma olhadinha no pobre coitado, e cadê? Você foi lá?
-Não...
-Mesmo assim foi ele.
-Ele também não tem a obrigação de andar cuidando dessas coisas, não...
-Nego Xavier, cala tua boca! – atalhou o Zezinho – Tu tá com essa punição toda porque tu é um cabra bajulador; um cabra safado...
-Nada! – replicou o Xavier – Tu é que tem queixa do doutor porque ele comeu tua filha, e agora tu vem procurar a honra dela em cima de mim?! Oxe!
-Tu é cabra de peia, Xavier. Tu sabe que ninguém gosta de tu porque tu vive bajulando o doutor. Aprende a respeitar os homens e pesa as tuas palavras senão eu corto a tua língua a faca.
-Repete que tu corta a minha língua a faca, Zezinho da peste! Cabra do inferno! que eu é que corto a tua...
Quando o Xavier terminou de falar, o Zezinho saltou - já de faca em punho!! - e logo

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Xavier fez o mesmo. Seu Aristides tentou, inutilmente, acalmar os dois, dizendo:
-Rapazes, deixem isso pra lá. Venham tomar as chamadinhas de vocês e deixem o resto por minha conta. Encrencas não enchem barriga de ninguém.
Ninguém deu atenção ao velho Aristides – foi como se ele houvesse falado Grego.
Os homens, que há pouco discutiam, agora apagavam a luz dos candeeiros e a bodeguinha do Aristides ficou no escuro total – estava pronto o campo de batalha para a luta sangrenta.
Ouviu-se o tinir das facas, uma na outra. Seguiram-se outros tinidos e nenhuma voz humana. As facas tiravam faíscas de fogo uma da outra. Por fim, alguém falou:
-Cabra ruim, hoje eu bebo teu sangue como se bebe água depois de um dia de sede. – era a voz do Zezinho, ao som do tinir de facas.
-Pode suceder o contrário. – retrucou Xavier – No pau que corre o risco também corre o machado.
Durante uns vinte minutos, aproximadamente, nada mais se ouviu - a não ser o tinir

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das facas. Em meio aos tinidos, ouviu-se gritos e gemidos de dor. Depois, o silêncio reinou na bodeguinha.
Decorrido algum tempo, Seu Aristides saiu de sob o balcão de madeira, já estragado pelo cupim, onde permaneceu por todo decorrer da briga. Reacendeu os candeeiros e somente agora puderam ver o que aconteceu – o terreiro já estava repleto de curiosos.
O Xavier, estirado no chão, ainda com a faca na mão, esvaía-se em sangue.
Zezinho estava a uns três passos do Xavier, num esforço estrênuo: com a mão esquerda a repor as tripas que saíam pelos dois grandes rasgões em sua barriga. Com a mão direita, tentava levar a faca ensangüentada até a boca.
Do meio dos curiosos, alguém falou:
-Gente, num deixa o homem morrer sem vela, não. Botem ao menos um candeeiro aceso na mão dele, que quem é cristão não pode morrer sem a luz de Deus.
Xavier não esperou por vela coisa alguma: deu o último suspiro! “Fechou o paletó” para sempre! Perdão: Xavier nunca tivera o prazer de, ao menos, pegar num paletó, mesmo

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dos outros... “Bateu a biela” – era máquina!
Enquanto isso, Zezinho acabava de conseguir concretizar sua promessa: lambia o sangue do Xavier que ficara em sua faca, passando a língua de um lado e de outro da mesma, com um prazer selvagem; feroz.
Seu Aristides tentou colocar um candeeiro em sua mão mas Zezinho dispensou – preferiu morrer sentindo o “gosto adocicado do sangue daquele cabra atrevido”.
Logo alguns dias depois da morte dos dois, saíam os versos de João Bodó, que começavam assim:

“Bandido! Assassino! gritaram juntos.
Tombaram os dois já defuntos
Para nunca mais se erguerem!
Morreram os dois por besteira; por nada.
Um, lambia a faca; o outro, tapava a facada
Que era para as tripas não descerem.

Morreram por ignorância. Por loucura!
Mataram-se pensando que faziam bravura.
Deixaram foi as famílias desamparadas.
E assim eles geram uma eterna vingança
Para deixarem uma brutal herança:
Os filhos também irão morrer a facadas.

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CAPÍTULO VIII

Era madrugada. Alguns pássaros batiam as asas e ensaiavam os primeiros toques da alvorada sertaneja.
No oitão da casa-grande da fazenda, o galo-de-campina, saltitando de galho em galho, dobrava o seu canto de alvorada – o mais belo de todos os pássaros nordestinos!
A barra estava clareando – estava nascendo o dia dezenove de março de mil novecentos e setenta e dois.
Para o sertanejo do Nordeste, este é um dia diferente de todos os demais dias do ano: é o dia da decisão. O dia das definitivas experiências sobre o inverno de cada ano...
É, pois, o dia do “Divino São José”. “Dia santo... pois é!”, e das procissões até o Serrote do Cruzeiro, onde todos têm que fazer penitências para que, em troca e como agradecimento pelos festejos do dia, “São José peça bom inverno ao Divino”.
Todos têm as suas experiências sobre o futuro inverno! porém, nenhuma com a mesma

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credibilidade de que desfrutam as experiências do Padrinho Juvêncio!
-Com mais de cem janeiros no talo e nunca uma experiência sua falhou: quando diz que é seca, é seca! – é o que dizem todos que conhecem o Padrinho Juvêncio, nem que seja só de nome, ou renome...
O dia amanheceu...
A casa do velho Juvêncio – ex-escravo de mais de cem anos! – parecia um formigueiro humano. Era a solenidade anual à espera da grande notícia: logo o Padrinho Juvêncio (que havia passado toda a noite anterior, desde a “Ave Maria” até o sol nascer sentado em sua rede branca, com o rosário nas mãos e cabisbaixo) sairia até a latada e diria suas previsões para o futuro inverno.
Fez-se silêncio...
Os homens retiraram os chapéus. As mulheres começaram a rezar o “Bendito”: era o Padrinho Juvêncio que se levantara e vinha em direção da latada. O preto velho terminara, finalmente, as suas orações! Portanto, estava, agora, pronto para dar suas previsões para o inverno vindouro.
-Meus irmãos!... - Juvêncio, já na latada,

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levantou o seu grande rosário até à altura da cabeça e se dirigia para a multidão – irmãos por parte do nosso pai eterno... Deus, nosso senhor, continua lembrando de nós, já que os deuses da terra nos esqueceram. Nosso bom pai vai mandar um ótimo inverno para todos nós, este ano!
-Graças a Deus!!!... – gritaram todos – Louvado seja o seu santo nome!
Houve, neste momento, aplausos e alegria geral.
Depois, já silêncio, o Padrinho Juvêncio continuou:
-Mas é preciso que a gente não se acomode, e quando na fartura não se viva só de farra. É preciso ter a alma e o pensamento voltados para Deus.
Neste dia, o velho Juvêncio pregou um sermão prolongado como fazia anos que não pregava um daqueles! Foram horas a fio de conselhos!
Terminado o sermão, ele deu a bênção a todos e cada um tomou o seu destino.
Dezenove de março é dia de folguedos. “Não é, e nunca foi, dia de trabalho. Dezenove de março é dia santo, do santo São José”!!!! É,

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pois, dia de alegria; dia de festa; dia de pagode. É dia de se jogar uma suequinha, na casa do compadre; depois, convidar o vizinho para “comer do arrubacão com torresmo, que a muiê preparou com muita pimenta e muito amor”.
E por isto mesmo é que, debaixo da latada da casa do Neco, já estava formada aquela tuia de gente.
Os mais velhos, iam jogar sueca; os mais moços, iam jogar peteca, e a criançada ia brincar nos paus-de-sebo e galamatos.

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CAPÍTULO IX

-Desde o governo de Getúlio que falam em Reforma Agrária. Vem hoje, vem amanhã, e nunca vem! E agora, depois dessa tal de Revolução de 64 (t’esconjuro com todos os diabos!), botaram uma pedra em cima! Dizem que “é comunismo” e que “comunismo não presta”. Ora! Se comunismo não prestasse, já tinha vindo pra o pobre, que o pau só quebra mesmo é no lombo do burro. Isso, quando é com o pobre; mas com o americano a coisa é outra: tão comprando a madeira da Amazônia bem baratinho, ocando a madeira e enchendo de minério e levando pros Estados Unidos! Mas o pau só quebra no lombo do burro mesmo. Também, né?! Brasileiro também começa com b...
-João Bodó, cala-te a boca! Tu num vai mudar o mundo... – atalhou Seu Amaro.
-Não! Não vou mudar o mundo, Seu Amaro! Quero só que o mundo não me mude!! Não agüento mais é ver tanta injustiça; tanta miséria; tanta fome, tanta exploração... quando

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outros se fartam, usam, abusam e lambuzam de tudo e de todos. (A viagem de João a Sousa serviu-lhe apenas para inflamar-lhe os ideais).
Houve um breve silêncio entre os dois. João Bodó, por fim, retomou a conversa:
-Seu Amaro sabe quanto ganha um deputado?
-Não...
-Mas sabe quanto custa uma diária no roçado?
-Sei... vinte cruzeiros.
-Pois um deputado ganha hoje quarenta mil cruzeiros no espinhaço da gente. Esses palhaços não fazem nada! São uns parasitas da Nação.
-Isso lá é verdade, mas o que se pode fazer? Vamos lutar com pedras contra metralhadoras? Eu sei, e todos sabemos, que isso aí é tudo uma farsa...
-Pois é!... – atalhou João – Em 64, eu vi metralharem brasileiros como eu e como você em plenas ruas de Recife, só porque gritavam o nome de Miguel Arraes. E Qual foi o crime de Arraes?! Ser brasileiro e querer ver a terra dividida entre os pobres? Multiplicaram a corrupção, a exploração, a fome, a miséria!!!... foi

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isto tudo que fizeram, e por quê? Porque os americanos assim ordenaram. Quem não sabe da interferência militar dos ianques, em 64? Todo mundo soube e tivemos que “engolir a tora” calados.
João teve que interromper a conversa, pois Dona Maricô veio até à latada servir um pouquinho de café:
-Tá meio amargo, porque o restinho da rapadura eu dividi com Comadre Ana.
-Amarga é esta vida, Dona Maricô. E as rapaduras de todos os engenhos do mundo não a adoçam. – retrucou João Bodó.
-Bêbado!... também começa com b. Cada brasileiro é um bêbado. Um bêbado, Seu Amaro!... Comendo qualquer coisa para esquecer que tem fome. Vivendo de qualquer jeito para esquecer que apenas vegeta. Vivemos embriagados na metafísica do “Deus dará”. Vivemos drogados no ópio que chamam “religião”...
-João!...
-Que foi, Dona Maricô?
-Mas tu num vai falar da religião, não?! É por isto que te chamam de comunista!
-Não, Dona Maricô. Não é por isto!!... É

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que quando a gente fala em liberdade, igualdade, justiça social e divisão das terras entre os pobres, os “sugadores” dizem que a gente é comunista, como se comunista fosse um bicho maldito. Mas malditos são esses exploradores de homens! Nós, pobres, somos a maioria; e se a gente se reunisse, esta maioria seria danada de poderosa.
-É, João!... – interveio Seu Amaro – A gente já tá velha; não serve mais pra essas coisas, não. Deixa isso pra vocês, que ainda são fortes.
-É... eu e Amaro só temos agora que pensar na morte.
-Não, Dona Maricô. Isso é se acomodar com a desgraça e a miséria. É não pensarmos no nosso semelhante. Se cada um fizer a sua parte, haverá justiça e felicidade para todos. Se cada um varrer o seu terreiro, o mundo todo estará limpo.
-É isso mesmo, Maricô; João tem razão. Sabe que se esse tal de comunismo fosse ruim já tinha vindo pra gente?! Num vem porque isso é ruim para os “poderosos”. Se entrasse um presidente que comesse feijão com rapadura preta só uma vez ao dia, logo ele sabia olhar

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pros pobres!...
-É... O JK, em 58, no tempo da seca, esteve em São Gonçalo; comeu feijão com farinha debaixo da barraca, junto com a caçacada. Ali sabia o que pobre sofre!... Esses “paus verdes” só entendem de bacamarte, e mesmo assim mal. – completou Amaro, pensativo.
-Sabe, gente? Fizeram deste país um quartel; agora temos que fazer deste quartel uma nação; mas uma nação de seres verdadeiramente humanos, e não de máquinas. E chega de tanta exploração; tanta miséria; tanta fome! Chega de tanta...
-Chega, João! Chega! que eu já tô me revoltando também. – Seu Amaro atalhou João Bodó subitamente e seu ímpeto fez reinar um ligeiro silêncio. Depois, retomou a conversa:
-Tá vendo estes calos, João?! Olha bem para estas mãos (que nem parecem mãos!). Deformadas!... não pegarão mais na enxada, João! Pegarão no fuzil, para fazer justiça! Eu sonho com Princesa... eu sonho com a Revolução de 30! Eu sonho com uma nova Revolução! Eu sonho com Canudos! Viva CANUDOS!! Viva CANUDOS!! Eu sonho com PRINCESA!! VIVA PRINCESA!!!!!!

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Seu Amaro correu pelo pátio, foi à cerca, retirou uma vara e, como se fosse um rifle, saiu disparando:
-Pan! Pann! Paann! A terra é nossa! A terra é de quem trabalha na terra! Pan! Viva CANUDOS! A terra é nossa, João! A terra é nossa! Pan! Pan! Eu amo esta terra; esta terra que reguei com o meu suor; esta terra onde plantei esperanças e colhi amarguras!... Ah! Maricô, minha velha! venha também abraçar a terra, que a terra agora é nossa!
Seu Amaro se estendeu bruscamente no chão e abraçou a “sua terra”.
Dona Maricô correu em busca do seu revolucionário em delírio e o abraçou gritando:
-João?! Amaro enlouqueceu!!! Valei-me meu Padrinho Cícero do Juazeiro! Amaro enlouqueceu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
-Não, Maricô. Eu não enlouqueci. Eu estou sonhando com Canudos! Eu estou sonhando com a Coluna Prestes, varrendo sertões, dividindo a terra com os homens que trabalham na terra; plantando a esperança em cada coração deste povo que, como eu e como você, não passa de burro de carga!!!!!... Viva a

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ANACORETAS

COLUNA! VIVA A COLUNA!!!!!!!!!!!!
Amaro corria e gritava mais e mais:
-Viva Alagamar! Viva o CAVALEIRO DA ESPERANÇA DE ALAGAMAR! VIVA ZUMBI REDIMINDO O SEU POVO!! O POVO ROMPENDO OS GRILHÕES DO CATIVEIRO!
João Bodó foi ao encontro de Seu Amaro e Dona Maricô; ajoelhou-se e também abraçou a “sua terra”.
O sol já morria, se enterrando atrás das serras cinzentas.
Tardes sertanejas – anoiteceres melancólicos!
Tudo é noite! No sertão tudo é eterno anoitecer.
João Bodó e Dona Maricô levaram Seu Amaro para dentro de casa, puseram-no em sua rede, onde permaneceu em seu tresloucado sonho até o outro dia raiar.

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CAPÍTULO X

Era exatamente uma hora e cinqüenta minutos da manhã de 16 de agosto de l968.
Ouviu-se barulho de dois ou três veículos e poucos minutos depois toda população de Vila Nova era despertada pelo matraquear das metralhadoras que tocavam a sinfonia dos covardes e dos opressores.
Vila Nova assistia, naquela madrugada macabra, a casa de João Bodó ser totalmente vazada de balas de metralhadoras e fuzis.
Como se fossem os donos do mundo, aqueles assalariados do crime invadiram a casa de João Bodó e lá dentro encontraram uma criança morta (toda rendada de balas) e uma pobre mãe semimorta.
Selvageria inadmissível para o homem pré-histórico.
A massa encefálica da criança ensopava o chão de barro da casa de taipa de João Bodó – o pai ausente.
Um dos homens – e nem sei se devo chamar aquilo de homens!! – grunhiu como se

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ANACORETAS

fosse o barrão do chiqueiro:
-Aquele comunista maldito me paga!...
Outro deles chutou a mulher que agonizava no chão e disse:
-É a puta daquele comunista safado!
-Puta é a tua mãe, macaco fardado! – gemeu a mulher.
Uma voz abafada naquela madrugada de quarta-feira de l968.
Deram, brutalmente, um chute na cabeça da mulher e ela perdeu os sentidos. Em seguida, partiram.
Daí a poucos minutos os moradores de Vila Nova estavam na casa de João Bodó, e foi Seu Amaro quem rompeu o silêncio:
-Pobre João!... Ele é quem está certo: comunistas não fazem estas coisas, não; comunistas sofrem estas coisas! Estas safadezas!...
-E quem eram eles?!... estavam fardados... – perguntou alguém, timidamente.
-Fardados de verde, de azul, de amarelo... só garanto que fardados de vermelho não tavam. – retrucou Seu Amaro.
Mariquinha cuidou da mulher enferma.
Raimundo se esforçou para tentar juntar

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o corpo dilacerado do que antes fora uma criança, colocou-os em um caixão, vazio, de sabão, e enterrou a filha de João Bodó no terreiro do curral – “lugar destinado a enterrar-se crianças pagãs”, segundo os nordestinos que mantêm, a todo custo, os dogmas de um povo inteiro.
Foi grande a expectativa e a pergunta pairou no ar:
-O que João irá fazer quando chegar?
Porém, logo tiveram a resposta.
Quase sol a pino quando João Bodó chegou. Aquele revolucionário era íntegro. Completo. Um espelho ideal para o homem. Pareceu adivinhar o que ocorrera. Entrou; sentou-se ao lado da mulher; acariciou-lhe os cabelos e sussurrou-lhe ao ouvido:
-Nizinha... Nizinha... Nem as metralhadoras hão de calar a minha voz! Nem minha voz deixará de clamar pelo povo. Derramaram o teu sangue e o de nossa filha para ver se era vermelho como o meu. Nizinha... pensam que mataram nossa filha e nossos ânimos. Enganam-se, pois! Nossa filha não morrerá! pois ela se chama Liberdade e é irmã gêmea do Amor, do Destemor, da Igualdade, da Justiça e

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ANACORETAS

da Grandeza.
João Bodó abraçou a sua companheira; apertou-a fortemente contra seu peito e gritou para todos:
-Derramar o sangue do povo é aguar a grande sementeira da LIBERDADE e da JUSTIÇA, pois o povo há de se rebelar contra os tiranos e opressores e fazer brotar sobre este chão de pedras as roseiras do AMOR, da LIBERDADE, da IGUALDADE e da JUSTIÇA SOCIAL.
Os tiranos constróem seu cadafalso na proporção que assassinam os heróis do povo.
João Bodó se dirigia agora a Seu Amaro:
-Queremos terra para trabalhar; tirar da terra-mãe, regada com o suor do nosso rosto, o pão que sacia a fome dos nossos filhos. Queremos a não exploração do homem pelo homem; direitos iguais para a mulher e o negro, que negro no Brasil continua escravo: você já viu um presidente negro? Um senador negro? Um governador negro ou mulher?!... Queremos um Brasil para os brasileiros. Queremos a nacionalização do Brasil!
Eufórica e revolta, a multidão, como um

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rio em fúria, gritou automaticamente:
-Queremos a nacionalização do Brasil!! Viva o Brasil e fora os ianques!!!!!! Fora as multinacionais!
-João Bodó ia continuar, porém a multidão não o deixou:
-Viva João Bodó! Viva João Bodó!
-Queremos emprego assegurado para todos; escola grátis para todos; comida para todos; moradia para todos; assistência médica e remédio para todos; queremos a seca como um fenômeno natural e superável e não como uma calamidade social, onde os ricos enricam mais e os pobres morrem de fome...
A multidão irrompeu em aplausos e vivas:
-Viva João Bodó! Viva João Bodó! Viva o Padin Cícero do Juazeiro! Viva o justiceiro Lampião! VIVA! VIVA! VIVAAAA!!...

ANACORETAS

CAPÍTULO XI

Era madrugadinha do dia treze de outubro de l972.
A barra já vinha clareando e os galos já estavam amiudando pela segunda vez.
Neco ia passando em frente a casa do Padrinho Juvêncio, quando parou atônito: é que ele ouviu gemidos na casa do “Padrin”. Quis acorrer mas tinha que chegar logo no engenho, e já estava atrasado.
Mas era o “Padrin Juvêncio”, ora!...
-Meu Padin pode tá passando mal e o engenho que vá às favas!
Bateu na porta, porém não foi atendido. Mas insistiu mais umas quatro ou cinco vezes, até perder a paciência. Deu dois passos atrás e se jogou contra o caniço que fazia a vez de janela e por aí entrou.
Porém é indizível o seu espanto ao ver o velho Juvêncio estirado ao chão, já na agonia da morte.
Neco levantou o preto velho, e não foi necessário tanto esforço para repô-lo na tipóia

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velha, pois do robusto escravo que fora, ali restavam trinta e dois quilos de “couro e osso”.
-Meu Padin?... Ô meu Padin? Meu Padin?... Ô meu Padin?...
Nada! Neco quis pedir socorro, mas a quem? A estas horas quem está acordado está no engenho.
-Mas deixar meu Padin só, nesse estado?! Não!
Ele insistiu mais uma vez:
-Ô meu Padin?... Meu Padin? Ô meu Padin?...
O velho Juvêncio entreabriu os olhos; tentou dizer algo mas não pode. Neco chegou-se mais, trouxe o candeeiro para mais perto e relutou piedosamente:
-Fala, meu Padin, fala!... Diga se tem alguma mágoa de mim; e se tem, o meu Padin me perdoa, né?
O velho tentou falar novamente, só que desta vez já não mais entreabriu os olhos.
Por fim, a custo de muito esforço, sussurrou:
-Meu filho... diga... aos outros... – Juvêncio, agonizante, parou.

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ANACORETAS

-Vamos, meu Padin Juvêncio! Pelo amor do Padin Cícero do Juazeiro, fala logo!
-Diga... aos... outros... es... outros escravos... que se... que se libertem!...
O velho Juvêncio expirou para sempre.
O dia já estava claro.
Neco correu direto para o engenho e de longe gritou:
-O Padin Juvêncio morreu!!!
-Tu num tá brincando não, ó Neco?! Cum a morte num se brinca.
-Tô não! O Padin morreu!
-Caldeireiros, bagaceiros, tombadores, gameleiros, cambiteiros, boca-de-fogo, mestre de rapadura, maquinista, auxiliares... Parem! Hoje é dia santo: o Padin morrrrrreeeeuuu!!! Vá um no canavial e mande os cortadores de cana pararem o corte e diga a eles que é dia santo: o Padin morreu!
-Mas Seu Amaro, o doutor Mário ficou de vir hoje pra moagem... – observou alguém.
-Que esse doutorzinho vá pros infernos, fazer companhia ao coronel, pai dele. Oxente, menino! Tu tá doido, é?! Padin Juvêncio morreu e a gente fica trabalhando? Não!!! – irritou-se Amaro, e alteando a voz:

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-Fechem o engenho que já me vou.
Já era tardezinha e todos os moradores de Vila Nova estavam na casa do velho Juvêncio: todos queriam a última bênção do “Padin”.
Sob a latada, alguns grupos de pessoas conversavam baixinho ou rezavam “pela alma do Padin”.
Alguns chegaram a comentar:
-Ainda bem que arranjaram uma roupa decente pro Padin.
-Até sapato!...
-Arranjaram uma rede nova?! Quem deu?
Alguém falou mansamente:
-Respeitem ao menos a presença do finado! Vocês não têm sentimento?
Alguém quis saber quais foram as suas últimas palavras. Neco, que estava sentado em um cepo, cabisbaixo, respondeu:
-“Diga aos outros escravos que se libertem”.
-Quê?! – perguntaram todos, espantados.
-Sim!... “Diga aos outros escravos que se libertem”.

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-Tava delirando... O coitado pensava que ainda tava na escravidão. – alguém quis explicar.
-Todos aqui somos escravos, sim senhores. – atalhou Seu Amaro e continuou:
-Precisamos nos libertar.
-Tá na hora do enterro. – disse Zefinha, sem mais entreveros.
-Ele deixou alguma herdade? – indagou Mariquinha.
-Que nada! Esse era tão pobre que não deixou nem dívida.
-Deixou, Itamar Cachacinha: e “diga aos outro que se libertem”. – retrucou Seu Amaro.

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CAPÍTULO XII

-Mas esse bichin quer saber mesmo o que se faz por estas brenhas? Trabalhar... trabalhar... Comer, quando há o que; mas tendo ou não, trabalhar... trabalhar... trabalhar... E arrepara que tem gente aqui que trabalha e não ganha e ainda por riba apanha, né, seu menino?
E, depois de uma ligeira pausa:
-Como é mesmo a graça de vosmecê?
-Eu sou fiscal do banco...
-Fiscá do banco!? Oxente, seu menino! e que diacho nós tem com banco?
-Vocês, nada; mas é que o doutor Mário vai fazer novo empréstimo e o banco exige essas formalidades. Aliás, formalidades para com uns; para com outros, são exigências sérias! - cuidou em se corrigir, com certo tom galhofeiro, o fiscal.
-Pai!? adonde já se viu gente cum esse nome, pai?!?!
-Não, Jãjão... o nome dele não é fiscá de banco não!!! É que o Seu Menino aí trabaia no

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banco de botar dinheiro, lá na cidade.
-Como é mesmo o nome do senhor?
-É Tibúrcio... Tibúrcio José da Silva, mas vosmecê pode chamar Bubu, que é como todo mundo me conhece por estas brenhas aqui.
-Pois é, Seu Bubu...
-Seu criado. – atalhou Tibúrcio.
-Este Brasil tá de mal a pior. Os americanos estão cada vez mais donos do “nosso” Brasil. Os japoneses também tão dando uma dentadinha de Brasil; e os alemães; e os suíços; e os...
-Sabe, Seu Menino? vosmecê tá bom de palestrar com o João Bodó; ele aprecia muito falar dessas coisas.
-E quem é João Bodó, Seu Bubu?
-Oxente! e o Seu Menino nunca ouviu falar no poeta João Bodó, não?! O mais afamado repentista destas bandas!? Num tarde ele aparecer por cá.
E o que ele fala?
-Ele fala essas coisas mesmo: que os estrangeiros tão tomando o Brasil; que a gente deve lutar pra ter a terrinha da gente mesma pra trabalhar; que é preciso todo o trabaiador e

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toda trabaiadora se organizá e se ajudar uns aos outros; que rico só quer ver o couro da gente... essas coisas mesmo de gente letrada.
-Mas isso não são coisas de gente letrada, Seu Bubu; são coisas de todos nós que sofremos a exploração na pele.
-Na pele e na barriga, não, camarada? – era João Bodó que acabava de chegar sem ser notado, provocando, de imediato, boa gargalhada.
-Quem é esse pai’d’égua, Tibúrcio?
-Eu sou fiscal do Banco do Brasil e pelo visto o senhor é João Bodó.
-João Bodó, mas sem o “senhor”.
O duplo sentido da resposta de João provocou nova risada entre os dois.
-Por estas bandas só vem quem tem negócio ou tá fugindo da polícia. Qual é o seu “negócio”?
-Formalidades burocráticas e autárquicas, nada mais. Às vezes, um cafezinho e um dedo de boa prosa.
-Ah! eu sei: safadezas de gerente e fazendeiros, né?
-E como não?! Cá pra nós, mas há um trinchinchim entre o gerente e o sub-gerente!!!

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Lá do banco, num sabe?!... Pois é...
-E que trinchinchim é esse? Diga logo.
-Sabe?... O negócio acontece mais quando se trata de pequeno ou médio agricultor. Você sabe: geralmente gente pouco esclarecida e boca-aberta...
João Bodó apurou ainda mais os sentidos e o fiscal continuou:
-O pobre chega e faz o cadastro; aí já um bom dinheiro e um bom tempo perdido com papelada inútil; pede o empréstimo, o gerente diz que não e coisa-e-tal... Por trás, vem o sub-gerente, que já tá combinado com o gerente, e diz pro coitado: “Se me dá 10%, eu dou um jeitinho de sair o empréstimo”. E o coitado tem que dar mesmo! E o empréstimo sai, mas com, além de juros e correções já descontados, o desfalque de 10% do valor bruto! Porém, no próximo fim de semana tem churrasco na casa do gerente ou do sub.
-Pois é... Quem tem a quem roubar, que roube. O povo é que se cuide.
-Esse governo é o melhor do mundo, João...
-Pra os ricos; mas desde que os ricos roubem e “paguem seus impostos em dia”, aos

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generais e essa corja ditatorial que aí estão instalados desde 64.
-Exato! É o que eu sempre tenho dito. Você é dos meus, cabra!
Porém, com cinco dias passados, Egberto José de Mesquita já não era mais o fiscal do Banco do Brasil; mas como o fato se deu, não se sabe explicar, a não ser com o dito popular que corre os sertões: “Mato tem olho e parede tem ouvido”.
Tibúrcio, quando soube do fato, comentou:
-Quem defende os pobres são vistos por esses filhos da besta-fera como bandidos. É por isso que já tentaram matar João Bodó não sei quantas vezes. Só porque o coitadin do fiscá deu uma palavrinha por nós, cortaram o emprego do tadin. Vai lá que era o único ganha-pão da fiarada do coitado!
E o era mesmo!
No outro dia Egberto José de Mesquita chegava em Vila Nova, com a mulher, a sogra e a filharada.
Procurou por João Bodó e tiveram uma conversa bem demorada. Porém, sobre o quê é
que jamais se soube.

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João Bodó e Egberto juntaram as duas famílias em uma só casa e nunca mais foram vistos.
Soube-se depois que as famílias recebiam dinheiro pelo Correio de Sousa; e alguns até diziam que o dinheiro vinha do exterior. Outros iam além e determinavam:
-Vem de Cuba!

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CAPÍTULO XIII

Dizem que Egberto e João Bodó tiveram participação na guerrilha do Araguaia, porém, não vi – não sei. Sei que eles estavam em Alagamar, e isto eu sei porque cheguei a vê-los lá, como posseiros. Não como “agitadores”, mas sim como redentores de dezenas de trabalhadores camponeses que, como os demais, não tinham ainda a consciência de que juntos e organizados são fortes e invencíveis.
João Bodó e Egberto se encarregaram do árduo trabalho de conscientização. A presença de Dom José Maria Pires facilitou o trabalho dos dois...
O interesse de Dom José pela causa daqueles camponeses não deixa de ter sido uma valiosa força moral para aquele povo. A posição de Dom José Maria Pires não representava a posição da igreja católica que, pelo contrário, reprovava-a. E essa mesma igreja hoje diz que “estava ao lado dos camponeses de Alagamar”, mas é que, como sempre, ela está ladeando os que triunfam.

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Dizem também que, em Alagamar, o nome de João Bodó era Pedro Gerônimo e o de Egberto era Belarmino Pereira. O certo é que boatos não faltaram. Uns, glorificavam João e Egberto; porém, outros os censuravam, principalmente por terem abandonado as famílias.
Um jornal de João Pessoa chegou a publicar em editorial que, entre os posseiros de Alagamar, havia provavelmente a infiltração de comunistas, e que o “elemento conhecido por Pedro Gerônimo” era “suspeito”; e afirmava o editor ter em seu poder vários poemas do “Sr. J. B.”, e que aquele “falso Pedro Gerônimo” teria feito “melhor carreira na literatura do que como agitador”.
Preterição a parte, mas é desnecessário dizer que tal jornal, reacionário como tal, era da União: órgão de propaganda do governo.
João Bodó leu aquela seboseira e comentou para si mesmo:
-Um dia, quando eu morrer de fome, esses imbecis irão dizer que me eternizei nas letras. Canalhas é o que são! Entreguistas da Pátria! Defensores das multinacionais e sugadores dos patrícios!!!! Bonecos cocacolizados,

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nylonizados, norteamericanalhados... Mercenários; vende-pátrias e testas-de-ferro do capital estrangeiro é o que são!!!!
João silenciou, quase sufocado de revolta e indignação...

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CAPÍTULO XIV

-Questão de tempo, Maricô. É só uma questão de tempo...
-“Questão de tempo, Maricô”! – Dona Maricô arremedou Seu Amaro, num gesto de impaciência, e continuou:
-Não é de hoje que você vem nessa conversa fiada de que no fim do mês nós vamos embora; e entra mês e sai mês e nada!...
-Mas também não precisa ficar nessa latumia todo santo dia não. E pra lhe falar a verdade, se aparecesse uns seis cabras por aqui, da marca de João Bodó e Egberto, eu não iria sair daqui nunca!
-E o que tem a ver?...
-Ora!... A gente ia levantar o povo e se apossar das terras, que é disto que a gente precisa: da terrinha da gente mesma pra trabalhar. Nem que seja a bala, um dia a gente consegue!
-Amaro! Acaba com isso, homem de Deus. Nós já estamos velhos demais pra essas coisas. E não é mais como quando você tinha seus trinta e poucos anos, foi lutar pras bandas

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de Princesa não. Ali, você era cabra disposto que nem boi fogoso; hoje, é um caco de gente.
-Maricô... Eu morro, o sangue dá no meio da canela mas não deixo de reconhecer que João Bodó tá certo. Temos que lutar com unhas e dentes contra esses exploradores da gente, porque só esperar por Deus já chega! E nos meus valha-me Deus só me acudiram os vermes. É preciso lutar, Maricô, mas lutar com ideal. E chega de servidão! Mas chega mesmo, sabe?
-Tá... você é quem sabe. “É melhor um desengano cedo do que um arrependimento tarde”. Já no fim da vida e agora quer fazer loucura.
E, depois de respirar profundamente, Dona Maricô continuou:
-O tadin do Cícero passou oito anos no meio do mundo, sem parente nem aderente, sofrendo que nem jirico, privado até de dar notícia ou receber notícias da gente... Quando é agora o coitado manda um escrito dizendo que vai se formar em doutor advogado este ano... Tanto esforço, tanto gosto, e agora você quer estragar a festa do pobrezinho. Não, Amaro!! Tenha dó daquele vivente. Eu sei que

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o maior prazer dele é ouvir você dizer de boca cheia: “Eu tenho um filho doutor”. Você já tá mesmo na idade de caducar, Amaro, mas isso não é caduquice não, é loucura! Loucura, Amaro, pura loucura.
-Que adianta, Maricô, eu ter um filho doutorado e o meu semelhante faminto, doente, sugado e esfarrapado? E você fique sabendo que se ele se doutorar for pra não defender o pobre oprimido, que ele nem me apareça.
-Amaro! – Dona Maricô chamou a atenção de Seu Amaro para a gravidade do que ele acabara de dizer.
-Pois é!... Se não for pra defender os direitos do pobre, eu prefiro Raimundinho com uma foice na mão do que todos os advogados do mundo, com canetas em riste, a serviço desses burgueses exploradores de homens.
-Mas o Cícero não vai ser assim. Ele tem o seu sangue, Amaro. Ele sofreu como a gente, portanto ele sabe o que pobre sofre e não vai trair o seu povo não.
-Melhor que não traia, pois se trair, eu nunca mais lhe boto a bênção! Para mim é um

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dedo que cortei e joguei fora.
Nisto, entra Mariquinha com uma carta na mão:
-A bênção, Pai... A bênção, Mãe... Itamar Cachacinha trouxe esta carta pro senhor. Veio da capital.
-De quem é? Não tenho nenhum conhecido pras bandas de João Pessoa. Tinha uma parente, prima já longe; dessas que a gente diz que é parente por consideração; ricursada, lá, isso é verdade, mas esse povo não sabe nem se a gente existe (e também é um favor, pois não quero aproximação com burguês)... Mas vê lá de quem é, minha filha...
-É de um tal de Pedro Bento. O senhor quer ler ou quer que eu leia?
-Oxe! E você pensa que eu enxergo mais essa letrinhas miúdas assim? Pode ler você mesma.
Seu Amaro encostou-se mais perto de Dona Maricô e sussurrou-lhe ao ouvido:
-Tadinha! A bichinha já vem trazer porque sabe que eu não enxergo mais essas coisas, né, Maricô?
É mesmo!...
E riram os dois numa alegria incontida e

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aberta.
Mariquinha desconfiou:
-Que foi?...
-Nada não. As besteiras de teu pai, mesmo.
-Vamos, minha filha, leia. – relutou Seu Amaro, um tanto impaciente e ansioso.
Mariquinha rasgou o envelope e leu:

“Camarada Amaro,
saudações!

Gostaria de poder te dizer pessoalmente o que passo a te dizer, agora, através desta missiva. Mas, infelizmente, me é impossível no momento.
Sei que aí, em Vila Nova e redondezas, já me têm como morto, porém, não tão morto!
Amaro! Estive em outras terras; vi outros povos que, na verdade, são iguais a nós: trabalham, enricam cada vez mais os patrões e morrem de fome.
Há dias que estou aqui, mas como no nosso Brasil os homens de bem têm que negar a sua verdadeira identidade, enquanto que os oportunista, corruptos e ladrões esnobam com

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as riquezas do povo, eu tive que adotar vários nomes falsos para sobreviver.
Sabes, Amaro, eu nunca havia chorado por mim mesmo, não sabes? Mas hoje eu chorei por este morto que ninguém chora. E chorei tão profundamente como não havia chorado nem pela morte do Padrinho Juvêncio. E esta foi, Amaro, a primeira vez que chorei por mim mesmo: “o morto que ninguém chora”.
Como posso te falar da vontade de ver o meu povo? Como, Amaro, se nossa gramática é curta?! Sou como o Nordeste sem chuva. E o que mais posso dizer-te, Amaro, é que realmente morri, pois morro a cada vez que sei que no meu sertão não choveu. Pois bem diz o poeta: “Chuva no sertão é um deus: fecunda tudo”.
Quem pode reviver não vive de relembrar, meu caro Amaro. E eu não vou relembrar por mais tempo da nossa querida Vila Nova, pois a qualquer hora, quando me vier na veneta, eu bato aí.

Abraços,

João Bodó.”

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-Eu logo vi que só podia ser coisa de João Bodó. E se ele vier mesmo não vamos mais embora daqui não, Maricô.
-Oxente! Por que, Amaro?
-Porque isto aqui vai ser nosso, Maricô. Nosso! De nós que trabalhamos nesta terra, sol a sol, e que só um cabra como João pode libertar de tamanha escravidão. Deixa o Bodó chegar aqui que eu vou lhe mostrar o que um povo, faminto e escravizado, é capaz de fazer quando se rebela contra os seus exploradores.
E virando-se para Mariquinha:
-Minha filha também não queria sua terrinha pra trabalhar?
Mariquinha juntou as mãos entre os joelhos, num gesto que denotava acanhamento, e respondeu profundamente:
-Eu queria... E quem não queria, né, Pai?
-Tá vendo, Maricô? Só você que não quer...
-Quem não quer?! Eu?! Tu tá é doido. Todo mundo quer sua terrinha própria, eu sei, Amaro. O que eu num tô de acordo é que tu, nessa idade, põe-se agora querendo mudar o mundo!!!! Você quer mudar o mundo sozinho,

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Amaro!!! Deixe que os outros façam a parte deles.
-Certo... certo, Maricô! Quer dizer que você concorda que eu faça também a parte que me toca, né?
-Não, Amaro; não! Eu disse que você já fez o que podia fazer.
-Mas eu não fiz nada. Nunca fiz nada pelo meu povo; e não vou perder a única oportunidade de fazer, não, Maricô. Por nada no mundo...
Dona Maricô apelou para a influência da filha, na esperança de despersuadir Seu Amaro daquela obsessão medonha:
-Minha filha, o que você acha? Você não acha, também, que seu pai tá com a bola virada?
-Sei não!...
E depois de uma breve pausa:
-Se eu disser, mãe não fica com queixa não?
-Não, minha filha; pode dizer.
-Acho que pai tá certo. É preciso fazer alguma coisa, mãe, e até hoje ninguém fez nada.
-Mas minha filha... - Maricô falou como

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incrédula de que a sua filha estivesse de acordo com aquela “aventura louca” de Amaro, e continuou, desconsolada:
-Mas logo seu pai, minha filha?!?! Logo seu pai?! Já velho como tá; fraco, nesse estado... – apontou para o marido e continuou – é loucura! Vamos lá que esse negócio de reforma agrária seja bom pra gente, mas seu pai sozinho não vai conseguir não, minha filha. Vão é matar seu pai, como já tentaram matar João Bodó, sei lá quantas vezes.
-Logo eu, Maricô! Logo eu! E não é loucura não. Não é desespero não. E não é porque não tenho nada a perder mais na vida, e sim, porque com isto nós só temos a ganhar. E eu não quero morrer escravo não, Maricô! Eu quero morrer livre; livre, Maricô! Livre como um riacho que desce serrote abaixo! Livre como o galo-de-campina anunciando, na madrugada, o novo dia que vem!

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CAPÍTULO XV

Nordestino é aquele homem que, acostumado com a caatinga, se rasgando nos espinhos de jurema, convivendo com dois monstros vorazes: o patrão e a seca, e, como todo brasileiro, sofrendo a influência degradante do estrangeirismo “made in USA” (usa, abusa e lambuza mesmo!), conseguiu, incrivelmente, conservar o que de mais puro e íntegro há na espécie humana, que é a simplicidade.
O sertanejo do Nordeste é, além da grandiosidade peculiar do nordestino, aquele homem que se sente infinitamente feliz quando ouve do compadre, ou lhe diz com a voz mansa e profunda:
-Este ano eu tirei a conta com o patrão.
-O riacho tá que não dá passagem.
Ou ainda:
-O roçado tá de cobrir um homem.
O Nordeste é, indiscutivelmente, o celeiro da cultura brasileira. E dois extremos contribuem enormemente para tal: ou se dedica integralmente à cultura ou se mofina no seu

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roçado. E isto acontece infalivelmente.
Emigrar não é verbo para o bom nordestino. Os que daqui se vão são os incapacitados de viver condignamente aqui. Emigra, principalmente para São Paulo, a escória da lavra nordestina, pois aí, centro da degradação do homem e ascensão do capital e das máquinas conviverão muito bem.
São estes que, quando em São Paulo, têm vergonha de dizer-se nordestinos, para felicidade e glória do Nordeste.
Não sabem estes que São Paulo é a entranha exposta do Brasil para o capital estrangeiro e portões escancarados às multinacionais. Não sabem estes que, apesar dos pesares, o Nordeste é, com certeza, o maior reservatório da cultura nacional.
Não há nada mais alegre, mais sublime e mais envaidecedor para um nordestino do que ouvir, vindo da mata verde, o som pungente de um chocalho: tengo-lengo, lengo-tengo; tengo-lengo, lengo-tengo; e, em seguida, o aboio plangente de um vaqueiro saudoso:
-Fasta pra lá, vaca magra! Êh! Te ajeita, boi Marujo! Êeeehhhhhhhhhaaaaa!!!

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Lugar de nordestino é, indubitavelmente, no Nordeste, onde ele, apesar das condições desumanas em que vive, tem o convívio humano e dignificante do vizinho, do compadre e dos familiares. Porque nordestino em terras alheias é sempre visto como um troço qualquer, cheio de lombrigas, de pobreza contagiante e que só serve mesmo para ser explorado.
Foi pensando assim, possivelmente, que Seu Amaro desistiu, por várias vezes, de deixar o seu torrão natal. E também não seria agora que ele iria partir não. Longe dele tamanha fraqueza!
Foi absorto nestes pensamentos que Seu Amaro começou a ouvir o rádio tocar a “TRISTE PARTIDA”, cantada por Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Foi até ao rádio, abriu-lhe mais o volume e, na proporção em que ouvia aquele hino, chorava mais e mais, como se fosse a história de sua própria vida!

“Trabaia dois ano, treis ano e mais ano,
E sempre nos prano de um dia vortá.
Mas nunca ele pode – só vive devendo,
E assim vai sofrendo – é sofrer sem parar!

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Se alguma notiça das banda do Norte
Tem ele por sorte o gosto de ouvir
Lhe bate no peito saudade de moio,
E as água dos óio começa a cair.

Do mundo afastado, ali vive preso;
Sofrendo desprezo, devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia e vem dia
E aquela famia não vorta mais não.”

-Se não volta, não vou!
Seu Amaro desabafou como se falasse para uma multidão.

“Distante da terra, tão seca mas boa,
Isposto a garoa, a lama e o paul,
Faz pena o nortista, tão forte e tão bravo
Viver como escravo no Norte e no Sul.”

-“Faz pena o nortista, tão forte e tão bravo, viver como escravo no Norte e no Sul”.
Seu Amaro repetiu aqueles versos tão amargos de cantá-los que é impossível dizer da amargura de vivê-los; e quando ele estava enxugando as lágrimas dos seus olhos mortiços, semi-opacos e baços pelos anos, ele ouviu

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uma voz que não lhe era estranha:
-Tá chorando, Seu Amaro?!
-Tô reconhecendo essa voz.
Seu Amaro colocou a mão espalmada sobre os olhos, para facilitar-lhe melhor a visão, porém, a súbita claridade da porta e as lágrimas que ainda borbulhavam, não lhe permitiram distinguir perfeitamente de quem era aquele vulto. Levantou-se e caminhou em direção da porta, mas o vulto sumira. Saiu até à latada mas também não viu ninguém.
-Será visagem? Era só o que me faltava!
Seu Amaro voltou para a sala já um tanto intrigado com aquele mistério. Sentou-se novamente em sua espreguiçadeira e ouviu aquela voz outra vez:
-Tava chorando, Seu Amaro?!
-Olha aqui, ô menino! eu não sou muito chegado a esses pantins bestas não, ouviu?! Quando vou aí, você corre; volto e você reaparece... Isso é coisa de moleque, sabe?
-Mas por que Seu Amaro tava chorando?
-Dê-se a conhecer que eu digo. Se quiser entrar, entre; se não quiser, pode ir embora.

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-Quer dizer que não tá mais me reconhecendo, Seu Amaro?
-Pra lhe ser franco, eu não tou é lhe vendo. Só vejo um vulto, assim: meio apagado. Mas é por conta da claridade da porta.
-Já ouviu falar em Pedro Gerônimo?
-Pra bem dizer, já ouvi falar d’uns quantos e conheço outro tanto. Por quê?
-Pois eu sou Pedro Gerônimo, Seu Amaro. Pedro Gerônimo de Alagamar; nunca ouviu falar?
-Já. E o que lhe traz aqui? Mas espere aí... O que se boatou por estas bandas é que o Pedro Gerônimo de Alagamar é o nosso João Bodó. Você tá caçoando comigo? Diga que tá.
Seu Amaro se levantou e foi novamente até à porta; porém, desta vez o aborrecimento que já o dominava se transformou em alegria, só que sextilhões de vezes.
Nem dava para acreditar no que seus olhos viam. Aquilo deveria ser alguma brincadeira de muito mau gosto, de algum vadio de Vila, pois Vila Nova estava tendo destas presepadas, desde que começou a crescer. E bem que dizem por aí que em cidade aparece de tudo quanto não presta.

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E, sussurrando assim, abriu a porta e chegou-se bem perto daquele vulto que, agora, sob a claridade da latada, se tornou perfeitamente visível. Mas mesmo assim, vendo claramente a figura do João, não foi possível acreditar no que seus olhos viam; e, para tirar a dúvida, abraçou aquele fantasma; e, com a força que ainda lhe restara de oitenta e tantos anos de trabalho duro e vida amarga, apertou bem aquela figura, como se quisesse, assim, comprovar que, de fato, não estava delirando.
Mas era verdadeiramente João Bodó! E não havia mais dúvida alguma, pois ouviu perfeitamente suas costelas estalarem com o abraço tão apertado que lhe deu e sua voz firme reclamar:
-Você quebra meus ossos, Amaro!!!
-Sabe que eu já lhe tinha como morto, até eu receber sua carta?
-Da maneira covarde e bárbara como mataram minha filha, não era pra menos, Amaro.
Pois é... Vamos entrar, João.
Parecendo um monumento, no meio da porta, Seu Amaro gritou para dentro de casa:
-Adivinhe quem tá aqui, Maricô.

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-Mas era só o que me faltava mesmo! E eu tou adivinhando agora, Amaro?!
-Veja se acerta quem é. É a pessoa que eu gosto mais neste mundo. Adivinhe...
-Oxe! e eu pensei que a pessoa que você gosta mais no mundo fosse eu. Depois de velho deu pra arranjar “contrabando”?
-Essa mulher é assim mesmo, João: só entende as coisas pelo contrário.
-É claro que é depois da senhora, Dona Maricô.
-João Bodó! Reconheci só pela voz. Quanto tempo, hem, João?!?!?!
-Pra mim, foi uma eternidade, Dona Maricô!
-Eu dou por visto... Só penso no coitado do Cícero, jogado no meio-do-mundo, sem parente nem aderente. Deve sofrer que nem couro de pisar fumo.
-Besteira. Vai lá que ele nem se lembra que a gente é viva. – suspirou Seu Amaro, como se tirasse um grande fardo de cima de si.

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CAPÍTULO XVI

-Será do Nordeste que sairá a verdadeira Revolução brasileira. Disto eu não tenho dúvida. E será, de fato, uma Revolução feita pelo povo. Querem fatos? Pois bem. A única Revolução popular (e atentem bem), a única Revolução popular, feita no Brasil, nasceu aqui, na Paraíba, mais precisamente em Princesa Isabel. Não quero, aqui, questionar o seu valor político-ideológico; quero, sim, lembrar que “o povo é como um rio em fúria”, principalmente quando esse povo é nordestino e, mormente, quando esse povo está faminto e sedento de justiça e liberdade. Ah! querem fatos, não é? Pois lá se vão... No ano de l979, foi seca. Em l980, a mesma coisa; mas em 1981, já não é tão-somente “a mesma coisa”. A seca se repete pelo terceiro ano consecutivo, mas agora “a coisa é outra”. E isto é outra história!
Eram estas as palavras de João Bodó, sempre que havia alguém para lhe ouvir – e sempre havia.

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Até o dia 19 de março de cada ano, o nordestino mantém vivas todas as suas esperanças. Este ano de 1981, porém, a história é outra. Já nos primeiros dias deste ano, milhares de camponeses famintos e dispostos a tudo, saem do seu ostracismo à busca do precioso pão para matar a fome que, aos poucos, mata os filhos.
No começo de março de 1981, camponeses famintos vão à cidade mais próxima, com uma única finalidade: conseguir comer, pois têm fome. Mas para isto estão dispostos a tudo, como sempre está o bom nordestino.
Ceará, março de 1981. Piquet Carneiro é a primeira cidade que experimenta da força de um rio em fúria: um povo faminto. Depois, Acopiara, Senador Pompeu, Monbaça, Barro, Missão Velha, Russas, Barbalha, Milagres, Mauriti, Aurora e outras...
Em Pernambuco, o mesmo quadro. Na Paraíba, a expectativa é geral, como nos demais estados do Nordeste.
Em meio a este quadro macabro, onde a fome, a sede, a miséria, a nudez; injustiça social e abutres poderosos que ditam o “destino” deste povo tão sofrido!!... Em meio a toda esta

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nojenteza, o nordestino é, como se tudo isso aí fosse pouco, vítima do aviltamento de um imbecilóide estatal que declara publicamente, e toda imprensa publica, que no Nordeste não há fome e sim, subversão provocada por agentes comunistas.
-No Nordeste há agentes provocadores infiltrados, isto sim.
Foram estas as palavras do ministro do interior, cujo nome me recuso citar para não bostificar este trabalho que levo tão a sério e é um pedaço de mim mesmo.
A seca do Nordeste sempre foi uma indústria para aumentar os currais eleitorais e enricar ainda mais os “coronéis” (só que agora são os generais), e matar de fome e sede os pobres.
Amanhã ou depois irão dizer que João Bodó era um dos “agentes provocadores” das invasões ocorridas em diversas cidades de quase todos os estados nordestinos, na primeira quinzena de março de 1981, por milhares e milhares de camponeses esfomeados, sofridos e sugados.
Mas, infelizmente, este pré-movimento de reivindicação e libertação popular, feito por

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milhares de camponeses do Nordeste, coincidiu com um fato trágico e amargo, que deixou João Bodó desorientado por vários dias.
No dia dois de março, quando Seu Amaro soube que vários moradores da redondeza estavam reunidos em Vila Nova, dispostos a “atacar” a cidade, ele saltou de sua espreguiçadeira e gritou a plenos pulmões:
-Eu vou! Eu também voooooooouu! Ei! Esperem por mim! Eu também vou! Não!... Não!... não vão sem mim! – Amaro abriu a porta e saiu correndo.
Dona Maricô veio até a porta, quando viu Amaro correndo loucamente pelo pátio.
-Que foi, Amaro? Que foi, hem?
Porém, não teve nenhuma resposta.
Maricô tentou, inutilmente, alcançar o marido. Já exausta, parou e ficou contemplando-o bestialmente, já que nada mais podia fazer. Olhou para um lado e outro na esperança de que, naquele momento, aparecesse alguém.
-Não chega uma só alma vivente!... Triste de quem mora nestas brenhas! – lamentou-se Dona Maricô.
Amaro, porém, continuava em desvario, indiferente aos anos e aos apelos da mulher:

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-Eu vou também! Esperem por mim.
E corria mais; e gritava mais; e pulava mais; e ria mais:
-Chega, João, chega! que eu já tou me revoltando também.
Seu Amaro ria, pulava, gargalhava e quis cantar alguma canção, e cantou alguma coisa, que deve ter sido “MULHER RENDEIRA”. Foi até a latada e retirou uma vara e saiu correndo outra vez e gritando; e rindo; e gargalhando; e pulando...
-Tá vendo estes calos, João?! Olha bem para estas mãos (que nem parecem mãos!). Deformadas!... não pegarão mais na enxada, João! Pegarão no fuzil, para fazer Justiça! Eu sonho com Princesa... Eu sonho com a Revolução de 30... Eu sonho com uma nova Revolução! Eu sonho com Canudos! Viva Canudos! Viva CANUDOS!!! Viva PALMARES!!! Viva ZUMBI DOS PALMARES!!! Pan! Pan!... Pan... A terra é nossa! A terra é de quem trabalha na terra! A terra é nossa! A terra é nossa, Maricô! Pan! Pan! Eu amo esta terra; esta terra que reguei com o meu suor; esta terra onde plantei esperanças e colhi amarguras...

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Amaro caiu, como se quisesse abraçar a “sua terra”, e, naquela posição, seu sonho morreu para sempre.
Já no cemitério, quando ia receber o último adeus dos amigos e familiares, e João se aproximou para o seu adeus final, dizem que Seu Amaro riu quando João Bodó lhe disse:
-“SÓ MORREM AS CAUSAS PELAS QUAIS NINGUÉM MORRE”!!!!! Vai, Amaro; a nossa luta continua.

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ÍNDICE

CAPÍTULO:.............................................PÁG.
I......................................................................13
II....................................................................16
III...................................................................23
IV...................................................................31
V....................................................................39
VI...................................................................49
VII..................................................................56
VIII................................................................61
IX...................................................................65
X....................................................................72
XI...................................................................77
XII.................................................................82
XIII................................................................88
XIV................................................................91
XV...............................................................100
XVI..............................................................108

Um comentário:

Lena121 disse...

...muito legal!! interessante a idéia de contar nossas lembranças, recordações e nfim nossa vida... que já se foi e ninguém jovem próximo quer ouvir...nem saber se estas bem...Vivi contigo esses instantes seus que li...
Lenah121. 25maio2007.SP-sp.

Como podemos nós mesmos governar o mundo sem delegarmos poder a corruptos?

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